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Substack: entenda a plataforma que promete abalar o mercado de quadrinhos norte-americano

A última semana foi agitada no mundo dos quadrinhos. O boato de que Jonathan Hickman pode estar de saída da Marvel se espalhou por toda a internet quando o autor anunciou sua parceria com a Substack, plataforma que, desde junho, tem cooptado autores da Marvel e DC.

Nick Spencer saiu de O Espetacular Homem-Aranha por causa dela; James Tynion IV está de saída da revista do Batman pelo mesmo motivo. Saladin Ahmed, Michael Oeming, Scott Snyder, Skottie Young e Chip Zdarsky são outros nomes que decidiram ir para a plataforma, mas não de forma exclusiva, e, segundo alguns insiders, Donny Cates pode ser o próximo contratado.

Mas afinal, o que é Substack?

A resposta mais simples é: uma plataforma de newsletter.

A resposta mais completa é… um pouco mais complicada que isso.

Fundada em 2017, a Substack é uma editora digital com financiamento de capital de risco, o que significa que mesmo tendo pouco tempo de mercado e baixo valor financeiro, recebe uma grana alta de investidores que buscam lucro no futuro — basicamente, a mesma estrutura de uma startup. Só este ano, a empresa arrecadou 65 milhões de dólares para financiar sua expansão focada em autores e criadores de histórias em quadrinhos.

De acordo com a Business Insider, a empresa tem procurado esses criadores com um “novo modelo de receita“: eles recebem um adiantamento ao assinarem o contrato e, durante um ano, a plataforma retém uma porcentagem do valor pago por seus assinantes. Em contrapartida, a Substack oferece um espaço livre para publicação de conteúdo e seus autores mantêm todos os direitos sobre as propriedades intelectuais.

É uma espécie de junção entre o Patreon e o Kickstarter (uma espécie de Catarse americano), onde os leitores escolhem os planos que querem assinar para ter acesso a conteúdos exclusivos como artes, sketchs, eventos on-line, autógrafos, brindes, entre outras recompensas. Além do plano gratuito, os valores podem variar de US$ 7 ao mês a US$ 300 ao ano, a depender do autor.

O Substack está, literalmente, fazendo o maior investimento em quadrinhos autorais da indústria, tudo para que criadores como eu possam assumir o controle de suas próprias carreiras e fazer o melhor conteúdo para os fãs”, afirmou Scott Snyder em depoimento. O autor, responsável por uma longa fase à frente de Batman, oferece um curso de escrita em sua página.

Uma experiência digital (mas também impressa)

Desde o anúncio da sua entrada na plataforma, Jonathan Hickman tem enviado uma newsletter diária com seus processos de criação de Three Worlds, Three Moons, Universo Conceito que tem desenvolvido em parceria com Mike Del Mundo e Mike Huddleston. Tini Howard, Al Ewing, Ram V e a designer gráfica Sasha E. Head também fazem parte dessa empreitada.

Hickman sempre foi um ferrenho apoiador da experiência de leitura, e constantemente reclamava da obrigatoriedade de previews e sinopses de seus títulos. Reza a lenda que, assim que a pandemia estourou nos EUA e foi decretado o lockdown do país, o autor estabeleceu um plano para que todas as revistas da linha X saíssem exclusivamente em formato digital a partir de então. A mesma lenda diz que a Marvel o vetou e por isso ele estaria desgostoso em continuar como “editor” da franquia.

Na última sexta-feira, dia 13, Hickman explicou o que é seu novo projeto em um FAQ e também falou sobre o formato dessa(s) história(s).

Three Worlds, Three Moons terá uma edição impressa?

Sim. É claro. O plano é, eventualmente, fazer um dos livros mais bonitos do mercado. Desenhar [este projeto] é no que Sasha Head está trabalhando. Mas o espaço onde essas histórias nascem, vivem e crescem — é para ser uma experiência completamente diferente. E será.

Jonathan Hickman

Ainda não sabemos mais detalhes sobre esses lançamentos em formato impresso, mas dizer que, no futuro, essas obras estarão em editoras como a Image Comics e BOOM! Studios é uma aposta segura. Hickman e Zdarsky já trabalham com a Image há anos, assim como James Tynion com a BOOM!, mas ficar fora de uma editora “tradicional” para lançamentos periódicos é inédito para todos.

Vale lembrar que não é a primeira vez que uma plataforma digital com grandes nomes envolvidos surge no mercado. Fundada em 2013, a Panel Syndicate de Brian K. Vaughan, Marcos Martin e Muntsa Vicente publica HQs de criadores de todo o mundo em seu site e já teve um ou outro título lançado também no formato impresso, como The Private Eye. Em vez de assinaturas, a empresa aposta no modelo “pague o quanto quiser”. Outros sites como o Webtoon e Tapas também são referências quando se tratam de publicações digitais de tirinhas ou mangás.

Autores ainda mais perto dos leitores

Até o fechamento deste artigo, Chip Zdarsky havia sido o último grande anúncio da Substack. O autor de Homem-Aranha: História de Vida e da fase atual do Demolidor revelou em entrevista ao portal AIPT que foram meses de negociação e que, aos poucos, ele percebeu que o lugar era exatamente o que ele buscava — um lugar na internet onde ele não precisa lidar com trolls: “Eu vou sair da p***a do Twitter por um tempo, então se você quiser gritar comigo agora, vai ter que pagar para isso!, disse em tom de brincadeira. “Quantos covardes vão ter essa coragem?

Diferente dos boatos sobre a saída de Hickman dos X-Men, Zdarsky afirmou que deve permanecer trabalhando nas majors por mais um tempo:

Olha, James Tynion é um covarde que precisa ‘dormir’ e passar um tempo com as ‘pessoas que ama’. Eu continuo em Demolidor e continuo trabalhando em projetos da DC (…) Um dia vai ser ‘chega de Marvel e DC para mim’, e talvez isso seja uma escolha minha ou não. Então é importante que eu continue pensando e trabalhando em projetos próprios.

Maggie Stiefvater, autora de livros de fantasia como a Saga dos Corvos e O chamado do falcão, lançou uma newsletter na plataforma este ano e tem elogiado a forma como seu contato com os leitores melhorou desde então: “Eu tenho muitos seguidores [nas redes sociais], mas meu público na Substack, apesar de muito menor, tem bem mais a ver com o tipo de leitor que compra meus livros e me acompanha há uma década”. Além de contos inéditos, os apoiadores de Stiefvater recebem com frequência ensaios sobre seu processo criativo e de escrita.

Uma mudança de paradigma para as comic shops

Um dos pilares do mercado norte-americano são as comic shops. Diferente do Brasil, por lá, foram as lojas especializadas que sustentaram a indústria nas últimas seis décadas e ainda são uma grande fonte de atrito com as editoras e distribuidores. Lançamentos digitais em aplicativos como a Marvel Unlimited, por exemplo, não podem ser simultâneos por pressão dos lojistas. Então como eles ficam nessa equação?

Skottie Young, autor de Academia do Estranho, acredita que o modelo não irá interferir em nada. O autor também confirmou que seu trabalho na Marvel continua.

Não temam! Eu tenho feito quadrinhos por vinte anos e não vai ser agora que vou parar! É melhor acreditarem que meus gibis VÃO SER IMPRESSOS e chegarão às lojas! [A Substack] é um lugar para você e outros leitores verem [as histórias] ganhando vida e forma! Na verdade, POR CAUSA DESSE LUGAR, eu poderei desenvolver muito mais conteúdo e depois imprimir tudo!”.

Para Scott Snyder, a plataforma também é uma forma de trazer novos nomes para a indústria e, consequentemente, manter o mercado aquecido:

Para mim, esta plataforma é um lugar para investir na próxima geração de criadores. Em primeiro lugar, ensinando a um preço acessível e, em segundo lugar, ajudando estrelas em ascensão a dar vida aos seus quadrinhos. Isso vai ser um abalo sísmico, com toda uma legião de boas pessoas trabalhando para fazer uma indústria melhor, onde tenhamos um maior controle do nosso trabalho, além de um relacionamento direto e mais abrangente entre nós, os lojistas e, principalmente, os nossos fãs.

O real impacto da Substack no mercado ainda há de ser medido nos próximos meses e anos. Até o momento, Jonathan Hickman ainda não confirmou se continuará na Marvel ou se continuará à frente dos X-Men somente até Inferno, sua próxima minissérie. Outros grandes nomes devem assinar com a plataforma até o fim do ano, em contratos de exclusividade ou não. A conferir.

De qualquer forma, se você é fã de um desses autores, vale a pena assinar suas newsletters — paga ou não — e ficar ainda mais próximo dele(s).

Mas e então, caro leitor, você já estava ciente dessa nova empreitada que surgiu no mercado norte-americano de quadrinhos? O que achou da novidade? Deixe a sua opinião nos comentários.


Texto de Naotto Rocha

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