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Você consegue citar alguma época da Marvel desprovida de temas políticos?

Atualmente discute-se muito que a Marvel deixou de contar boas histórias e está focada em agradar as minorias. A primeira coisa que precisamos entender aqui é que não existe essa de “agradar as minorias”. Todos os quadrinhos possuem (e sempre tiveram) um público alvo. A diferença é que os públicos sempre foram generalizados, então, na intenção de “alcançar todo mundo”, sempre tinha alguém que ficava fora da brincadeira.

Sempre tem alguém que fica de fora

Podemos pegar aqui um dos maiores exemplos de diversidade nas HQs, os Novos X-Men do Dave Cockrum. Temos o Pássaro Trovejante (nativo-americano), o Noturno (alemão), Solaris (japonês), Colossus (russo), Ciclope (americano), Wolverine (canadense), Banshee (irlandês) e a Tempestade (afro-americana), entretanto, onde está o personagem gay?

Vejam bem, não estou dizendo que a revista obrigatoriamente precisava ter um personagem homossexual, apenas estou constatando que não existe nenhum mutante com essa característica nessa formação. Então mesmo quando se busca fazer algo “geral”, sempre se esquece de alguém.

O que a Marvel está fazendo hoje? Ela ainda lança essas publicações gerais que buscam agradar o máximo de pessoas possíveis, como os Vingadores por exemplo. Mas ela sabe que é impossível atingir todos os públicos de uma vez só. Então temos HQs de nicho específico, publicações que agradarão mais comunidades femininas, negras ou LGBTs por exemplo. Alguns exemplos disso são: Felina (comunidade feminina), Falcão (comunidade negra) e América (comunidade LGBT). Não estou entrando no mérito de se as HQs são realmente boas, pois como em qualquer mercado tem as revistas boas e as ruins, não é por ser de nicho que precisamos avaliar elas diferentes.

As publicações voltadas para um nicho específico certamente terão uma venda inferior às demais. Afinal, todo mundo compra as revistas “gerais”, mas apenas públicos específicos compram as de nicho. Traduzindo: Gays compram revistas para héteros, mas héteros não compram revistas para gays. E não, isso não está acabando com o mercado, pelo contrário. Com estratégias como essa, a editora consegue atrair para a mídia dos quadrinhos leitores em potencial que desconheciam essa arte.

Recentemente o editorial da Marvel informou que a revista protagonizada pela Thor vende melhor do que quando era protagonizada pelo Thor. E essa informação vai ao encontro da pesquisa que analisou o público dos leitores de quadrinhos no Facebook e em terras americanas, as mulheres já somavam 46,67% de todo o público. E isso foi em 2014.

Certa vez o Editor-Chefe da Marvel, Axel Alonso, deu a seguinte declaração sobre o tema: “Apesar de não termos nenhuma pesquisa de mercado, os olhos não mentem. Se você for em alguma convenção ou então em alguma loja especializada em quadrinhos, mais e mais leitoras estão surgindo. Elas estão famintas por conteúdo, e um conteúdo com o qual possam se relacionar“.

Existem ainda outros fatores que precisam ser levados em conta como por exemplo: o crescimento do consumo da comunidade latina, o poder aquisitivo do público LGBT e até a filosofia de parte da população negra de consumir apenas produtos produzidos por negros ou de empresas controladas por negros, para fomentar o desenvolvimento em tempos de crise.

O atual escritor do Homem-Aranha, Dan Slott, recentemente foi ao seu twitter e desafiou os seus seguidores a apontarem para ele um período da Marvel que seja desprovido de discussões políticas e sociais. E a conclusão foi de que tal período não existe.

Mesmo nos momentos em que o mercado tentou fechar os olhos e produzir apenas conteúdo “massavéio” (anos 90, estou falando contigo), ainda teve quem estivesse promovendo o debate. Separei aqui apenas UMA situação por década da editora, mas tenho certeza que vocês conseguem listar muito mais.

Década de 60: o surgimento dos X-Men, trazendo embate de Charles Xavier e Magneto. O sonho da convivência pacífica com a humanidade e a supremacia mutante. Uma analogia aos líderes negros Martin Luther King e Malcolm X.

Década de 70: os já mencionados Novos X-Men foram um marco nesse período. Com ênfase para o desenvolvimento que Chris Claremont trouxe para a franquia, humanizando o até então vilão Magneto. Foi ele também quem escreveu uma das mais elogiadas revistas mutantes, em que aborda a intolerância religiosa.

Década de 80: esse é um exemplo bastante específico e até pouco comentado, mas é bastante forte. Em uma HQ dos Novos Mutantes, escrita novamente por Chris Claremont, o escritor conta a história de um jovem mutante que, após sofrer bullying e ter dificuldades de se aceitar, decide cometer suicídio.

Década de 90: novamente temos os X-Men em destaque para discussões sociais. Dessa vez o protagonista foi o Estrela Polar, que ao longo de toda a década de 80 teve indícios de que era gay sendo apresentados de forma sútil nas publicações. Mas o editorial teve coragem de tirar o mutante do armário apenas em 1992, em uma história escrita pelo Scott Lobdell. Mas a história não traz boas lembranças, misturaram o fato do personagem ser homossexual com a doença AIDS… bem coisa dos anos 90 mesmo.

Ao longo de todas as suas décadas, questões sociais sempre estiveram presentes na Marvel. Foto: Divulgação.

Década de 00: uma das melhores abordagens de personagens homossexuais na Marvel foi em 2005, quando criaram os Jovens Vingadores. Billy (Wiccano) e Ted (Hulkling) emplacaram um relacionamento que em um primeiro momento gerou um ruído entre os leitores. Os personagens vingaram, estão até hoje juntos e já são uma referência LGBT na editora.

Atualmente: As discussões sociais não são uma exclusividade dos mutantes. Essas pautas de fundamental importância para que possamos refletir sobre a sociedade já permeiam diversas publicações. Desde a Miss Marvel, a jovem heroína muçulmana, até o Homem de Gelo, que se assumiu gay recentemente.

As publicações atuais da Marvel

Nesse mês de outubro a Marvel está publicando 55 revistas mensais de heróis, em que 22 são protagonizadas exclusivamente por personagens de minoria (mulheres, negros, LGBT, latinas, muçulmanas …). As demais publicações são: 16 revistas de heróis que não se encaixam em minorias e outras 19 HQs de equipes.

Atualmente as personagens femininas possuem 15 HQs na Marvel. Foto: Divulgação.

As 22 HQs de minoria: 15 são de mulheres (América, Capitã Marvel, Moon Girl, Garota-Esquilo, Gaviã Arqueira, Gwenpool, Homem de Ferro, Hulk, Jean Grey, Jessica Jones, Ms. Marvel, Punhos de Ferro, Gwen-Aranha, Thor e Wolverine); 6 são de personagens negros (Falcão, Moon Girl, Homem de Ferro, Homem-Aranha, Luke Cage e Pantera Negra); 3 são de personagens asiáticos (Hulk, Monstros à Solta e Punhos de Ferro); 2 são de personagens LGBT (América e Homem de Gelo); 1 é de uma personagem latina (América); 1 é de uma personagem muçulmana (Ms. Marvel).

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