Livre-se do preconceito, leia o Deadpool de Gerry Duggan

Sempre que o assunto Deadpool surge nos grupos de discussão de quadrinhos na internet, a reação da maioria é a mesma:hm, nem gosto“, “aff personagem chato da porra“, “não sei qual é a graça desse personagem“, “Deadpool? To fora, pego meu Wolverine e vou embora“. E este artigo servirá para conscientizar essa galera de que há qualidade nas páginas do Deadpool, pelo menos nas escritas por Gerry Duggan.

Antes de qualquer coisa, precisamos entender de onde surgiu esse estigma negativa envolvendo Wade Wilson. E existem quatro focos de origem para essa percepção. Vamos te mostrar os motivos do hate e na sequência te dar subsídios para querer ir atrás e devorar as HQs do Mercenário Tagarela.

Rob Liefeld

Bom, o Deadpool é uma cria dos anos 90, mais precisamente de Rob Liefeld. O artista é o sinônimo do período mais calamitoso para a indústria de quadrinhos. Foi nessa fase que passou-se a valorizar a arte em detrimento do roteiro. As HQs possuíam artes exageradas, muitas explosões, homens bombados com músculos que não existem e mulheres tão sexualizadas que inventaram curvas para o corpo feminino.

Nesse cenário surgiu o Deadpool, nas páginas dos Novos Mutantes. Mas em sua origem, Wade era apenas um mercenário comum, sem nada de especial. Um pouco fora-de si, ok, mas ainda não possuía a sua insanidade marcante e que o consolidou nos quadrinhos e cinema.

A primeira aparição do Deadpool na HQ dos Novos Mutantes. Foto: Marvel Comics.

Sendo assim, Deadpool já ficou marcado. Um filhote do período mais negativo dos quadrinhos e de um dos profissionais mais malhados e zoados do mercado.

Personagem difícil

O segundo motivo que fez com que o personagem ganhasse uma certa antipatia com os fãs é que ele era chato mesmo. Joe Kelly e Fabian Nicieza foram dois roteiristas muito importantes para o Deadpool, sendo os responsáveis por consolidar o humor como uma parte significativa da sua personalidade.

A HQ esbanjava referências e metalinguagem, mencionando os mais diversos acontecimentos e gerando diálogos absurdos. Muitas dessas referências não eram de conhecimento dos brasileiros, eram mais questões de cotidiano e até históricas dos Estados Unidos.

Página da HQ do Deadpool durante a fase de Joe Kelly. Foto: Marvel Comics.

A imagem acima representa tudo o que já falamos. Mostra também como o humor utilizado na época era o nonsense, ou seja, não fazia sentido. A proposta era mostrar o quão insano o personagem era, mas ao mesmo tempo matava-se qualquer identificação que o leitor pudesse ter, bem como o seu interesse em ler a HQ.

Massificação

Outro fator que contribuiu para a deterioração da imagem pública do Deadpool na comunidade de quadrinhos foi a grande exposição que o mesmo sofreu. Ele se tornou um fenômeno de vendas entre 2008 e 2009, mesmo sem ter um filme, animação ou um jogo de video game.

Nessa a fase ele ganhou dezenas de especiais, minisséries, revistas mensais e participações em outras HQs. Mas obviamente que enquanto a Marvel usava a sua imagem para vender, ela estava preocupada com a quantidade de revistas que o mercado suportava e não com a qualidade desses materiais.

A Tropa Deadpool, com direito até a um Deadcão. Foto: Marvel Comics.

E assim chegamos ao nosso quarto e último motivo para a descrença de Wade Wilson.

Daniel Way

Por algum motivo ainda misterioso, alguém no editorial da Marvel achou que Daniel Way era um bom escritor. Ele pode ser um ser humano fantástico e ter centenas de qualidades, mas escrever histórias em quadrinhos definitivamente não está entre as suas melhores atividades.

O autor pegou esse Deadpool insano, que tem um humor nonsense e cheio de referências e o levou para um nível além. Adicionou o conceito de distúrbio de personalidade. O Wade Wilson de Daniel Way conversava com ele mesmo, por vezes tendo até ferrenhas discussões.

O Deadpool de Daniel Way. Foto: Marvel Comics.

Esse período também ficou marcado pelos exageros e a infantilidade. O tom galhofa tomou conta da HQ, as histórias deixaram de ter qualquer tipo de profundidade e se tornaram rasas e leves. Como por exemplo na imagem acima, quando Wade se apaixona por um manequim.

Não é necessário dizer que em termos de qualidade esse foi um período desastroso, certo? Mas em vendas foi um sucesso, pois a HQ durou 63 edições.

Finalmente, Gerry Duggan

Amém! Demorou, mas finalmente chegamos no paraíso, ou melhor dizendo, na fase Gerry Duggan. O roteirista assumiu a HQ em 2012 e estará se despedindo dela agora em 2018. Foram 6 anos desenvolvendo a melhor fase do personagem.

O mais incrível foi que Duggan não tentou inventar a roda, não mudou radicalmente a caracterização do Deadpool: ele apenas o escreveu direito. A única mudança significativa foi ignorar a ideia da sua segunda personalidade.

O humor

Durante as suas primeiras 45 edições, Duggan contou com a colaboração do humorista Brian Poseh nos roteiros. Esse trabalho em conjunto realmente fez a diferença para que a HQ tivesse qualidade nas suas piadas.

O Deadpool seguiu aloprando nas suas aventuras, porém aquele tom nonsense acabou se transformando numa impulsividade. Foi como se todas as loucuras cometidas pelo personagem se explicassem pelo fato dele não pensar antes de agir e não calcular muito bem os seus atos.

Essa edição foi uma homenagem aos anos 90, reparem no design dos personagens. Foto: Marvel Comics.

As referências também ficaram mais contidas, passaram a ser sobre assuntos que o meio nerd de uma forma quase universal conseguisse compreender (salvo o primeiro arco, que é recheado por piadas políticas americanas). No exemplo acima podemos ver o momento em que o escritor usa na HQ uma clássica piada dos fãs, falando que Deadpool é uma cópia do Exterminador da DC.

O drama

Esse é certamente o ponto mais importante e certeiro de Gerry Duggan na HQ. Deadpool sempre foi um personagem marcado pelo humor e comédia, mas ao longo desses 6 anos, ele foi definido pelo drama.

Se o leitor for um pouquinho mais atento e ultrapassar a barreira do superficial, identificará que a história de Wade Wilson é uma enorme tragédia contada de uma forma bem humorada.

O escritor utiliza de momentos de insanidade para contrastar com as situações de drama, dando ainda mais peso aos dilemas do personagem. Sem entregar spoilers aqui, mas o Deadpool começa essa fase sozinho e sendo atormentado por isso, no meio dessa fase ele acaba construindo laços e constituindo o mais próximo de uma família que ele poderia sonhar e agora na reta final, tudo pode estar ruindo.

Deadpool utilizando a sua própria insanidade para tentar mascarar a sua solidão. Foto: Marvel Comics.

Ao longo dessas cerca de 90 edições escritas por Gerry Duggan, Wade não parou de sofrer nunca. Perdeu pessoas próximas, descobriu que foi manipulado para matar quem ele mais queria ter próximo de si, precisou pagar preços altíssimos para salvar quem ama e viu todos os “amigos” lhe virarem as costas quanto cometeu um erro.

Para ser bem sincero, a história escrita por Gerry Duggan proporciona um riso fácil, com as situações bizarras. Porém o sentimento ao terminar a leitura de cada edição é de impotência, tristeza e até frustração. Nós, leitores, enxergamos que o Deadpool faz tudo o que faz com a melhor das intenções, mas ele sempre se fode.

Você já tinha visto o Deadpool sofrendo de verdade? Foto: Marvel Comics.

Sabe aquela vontade de querer estender a mão e ajudar o personagem? É mais ou menos isso que tu vai sentir quando ler o Deadpool de Gerry Duggan. E não é fantástico que uma simples história em quadrinhos possa proporcionar uma sensação dessas?

Caso tu tenha se interessado por essa fase, a Panini já lançou três encadernados. O primeiro, chamado “Meus Queridos Presidentes” é o mais fraco dos três, Duggan ainda estava pegando o jeito. O segundo, “Caçador de Almas” já melhora consideravelmente e é bem bacana. O terceiro, “Três Homens em Conflito“, contudo, é simplesmente um clássico moderno da Marvel.

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E então, quem já leu o Deadpool do Gerry Duggan, o que achou? Estamos exagerando? Deixe a sua opinião nos comentários, queremos ouvir o que vocês tem para nos dizer.

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