Por que os leitores de quadrinhos não merecem Chelsea Cain!

Em 2015, após a megassaga Guerras Secretas, a Marvel Comics realizou um relançamento de toda a sua linha de quadrinhos, foi a iniciativa Totalmente Nova e Diferente Marvel (All-New All-Different Marvel). Nesse período ocorreram diversos lançamentos de revistas novas, dentre eles a HQ da Harpia, que escancarou o machismo do leitor nerd.

Harpia nunca foi uma campeã de vendas (e nem acho que alguém dentro da editora tivesse essa pretensão), já que era uma personagem relativamente desconhecida do grande público.

Mas, em 2016 a publicação foi cancelada e Chelsea Cain, autora da revista, pediu que os leitores garantissem que a Marvel continuasse a fazer revistas com “mulheres chutando bundas”.

Foi então que uma galera com muito tempo sobrando, resolveu enviar mensagens ofensivas, praticar discursos de ódio e ameaçar a escritora.

Foram identificadas poucas mensagens públicas no Twitter que configurassem discurso de ódio contras as mulheres, mais precisamente contra a figura de Cain. Porém, entende-se que boa parte das publicações ocorreram em resposta aos tweets originais da escritora ou por mensagem direta. E tudo isso foi deletado junto com a sua conta.

Um dos tweets que estão disponíveis, mas que não publicaremos aqui devido a sua crueldade, foi uma ilustração da Harpia jogada no chão, espancada e estuprada. O usuário escreveu no corpo do tweet: “Nós só podemos esperar que da próxima vez que ela aparecer (a Harpia), ela seja estuprada pelo Homem Púrpura (vilão que já abusou de Jessica Jones)“.

O centro de todo esse ódio acumulado não foi apenas o tweet, mas também a capa da última edição da Harpia, desenhada pela artista Joelle Jones. Nela, temos Bobbie Morse, a protagonista da HQ, vestindo uma camisa com os dizeres: “Ask me about my feminist agenda”.

 

As consequências disso tudo foi que Chelsea não saiu apenas da Marvel, mas do mercado de quadrinhos como um todo. Disparou sobre esse espaço da industria, apontando que já escreveu diversos livros e nunca havia sido tão covardemente bombardeada por reações de ódio.

Separamos abaixo alguns prints com os posicionamentos de Cain postou em seu Twitter na época:

“Eu te amo” – mensagem que a minha filha de 11 anos me enviou, porque estou no meu escritório lidando com valentões misóginos no Twitter em vez de…

Meu desabafo não foi um pedido de atenção. Sério. Pra mim chega. Me surpreendo com a crueldade que quadrinhos geram nas pessoas.

Brian Michael Bendis: Não é por causa dos quadrinhos.
Chelsea Cain: É sim. Podemos falar mais sobre isso pessoalmente. Mas é sim.
Dito isso, saiba que se você for cruel, eu te bloqueio. Se você for machista, eu te bloqueio. Se você for babaca, eu te bloqueio.
Meu trabalho é escrever sucessos. Best sellers. Vendi milhões de cópias. Nunca precisei bloquear pessoas até começar a escrever quadrinhos.

Muitos dirão que o cancelamento se deu apenas em razão das baixas vendas da revista, o que é um fator decisivo, obviamente. Mas o que quero discutir aqui não é o cancelamento, mas o afastamento da escritora do meio dos quadrinhos.

Atualmente estou lendo e relendo diversos títulos da Marvel, justamente da polêmica All-New All-Different Marvel. Apesar de ter vivenciado toda essa situação naquele ano, ler Harpia e perceber que a Marvel perdeu uma excelente autora, não só indigna como frustra, pois percebemos que a voz dos desesperados por atenção tem força e pode coibir que trabalhos como este sejam produzidos.

Esse fato revela muito mais sobre nós leitores de quadrinhos e como lidamos com aquilo que nos é diferente do que sobre qualquer outra coisa. Aparentemente, alguns leitores, mesmo tendo anos e anos de background com os X-Men, Homem-Aranha e Demolidor, simplesmente agem como crianças birrentas diante do novo.

Tivemos uma autora inteligente, a frente de um título pouco chamativo e que mesmo assim fez um ótimo trabalho. E ela foi afastada do mercado, não voltará a escrever outra história em quadrinho, simplesmente porque um bando de babuínos bobocas resolveram balbuciar em bando. Realmente não à merecemos.

[Nota do Editor: aqui eu deixo um parenteses apenas para destacar que isso tudo se resume ao incrível fenômeno dos leitores que não leem as HQs. Duvido com toda a força do meu coração, que a galera que produziu esses discursos de ódio realmente leu alguma edição da Harpia]

Harpia foi uma das revistas que melhor soube desenvolver a ideia de diversidade. Foto: Marvel Comics.

Volto a dizer, pode-se simplesmente atribuir o cancelamento apenas aos números que eram baixos, porém inúmeras revistas com números menores são mantidos simplesmente para agradar ao público alvo padrão dos quadrinhos. O título não apenas foi cancelado como afastou indefinidamente uma autora que poderia render muitos outros trabalhos.

E mesmo com o cancelamento, poderíamos ter a Chelsea assumindo outro trabalho. Ela se mostrou competente. É uma mulher com personalidade e muito talento. Em um mercado tão masculino, mulheres deveriam ser sempre bem vindas para trazer um frescor.

O título foi indicado ao Prêmio Eisner de Melhor Série Nova em 2017 (onde concorreu com os excelentes Black Hammer de Jeff Lemire e Deathstroke de Christophes Priest) e seu primeiro volume se tornou um dos títulos da Marvel mais vendidos na Amazon em 2016, contudo em nada mudou o fato que a ignorância e o ódio afastaram uma artista de um nicho que estava entrando.

#ComicsGate

Bom, por que então revisitar esse assunto quase dois anos depois? Por que seus reflexos permanecem mais vivos do que nunca. Basta ver o recente caso do #ComicsGate, grupo formado por leitores conservadores, que já está ganhando o reforço de artistas como Ethan Van Sciver (DC Comics) e John Malin (Cable), que acreditam que uma agenda liberal esteja destruindo o mundo dos quadrinhos.

Uma iniciativa dessas além de ser tóxica, apenas afasta os bons profissionais. Muitos roteiristas de quadrinhos também trabalham com séries de TV e filmes. Se o movimento começar a perseguir os autores devido aos seus posicionamentos e histórias, eles simplesmente vão virar as costas e sair.

Quem perde são os próprios leitores e o mercado. Algo semelhante já ocorre com o escritor Jonathan Hickman e os leitores dos X-Men. Ele é um dos grandes nomes do mercado e tem um enorme repúdio pelo comportamento desses fãs. O resultado é que ele declara aos quatro ventos que jamais escreverá os mutantes.

Já perdemos Chelsea Cain, quantos outros profissionais iremos perder com esse #ComicsGate? O movimento em essência é uma censura (nem tão) velada, afinal, querem definir o tipo de quadrinho que as editoras devem publicar. Autores que optarem por abordar elementos liberais em suas HQs, serão boicotados, postos em listas negras e certamente sofrerão massivos ataques de ódio (coisa que como aprendemos hoje, já ocorre).

Obviamente o mundo pode seguir em frente sem Chelsea Cain nos quadrinhos, mas quem sabe, poderíamos ter mais trabalhos excelentes desta ilustre autora se não fosse por esse movimento que toma a internet. Não vivemos mais na Era de Prata dos quadrinhos, sob o selo do Comics Code Authority e não devemos simplesmente cair na mesma situação novamente. O mundo mudou. Quadrinhos são para todos.

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