23 momentos que mostram quão bizarros e peculiares foram os X-Men de Chuck Austen

Recentemente acompanhando a atual fase dos X-Men comandada pelo escritor Jonathan Hickman, reparei que há diversas referências ao período em que Mike Carey escrevia as histórias mutantes.

Hickman é um fã confesso de Carey, então conceitos como os Filhos da Câmara estão retornando. Para aquecer a minha memória e desfrutar ainda melhor das atuais histórias, optei por reler uma série de histórias antigas.

Acabei optando por reler toda a fase de Chuck Austen, que sempre foi muito polêmica, para seguir no período de Peter Milligan e aí sim chegar em Mike Carey.

E enquanto rememorava as histórias de Austen, fui surpreendido por diversas camadass polêmicas que são até surpreendentes de se imaginar que estavam em histórias em quadrinhos publicadas lá em 2002.

Apesar de momentos extremamente problemáticos, que destoam fortemente do nosso momento social atual, há situações que hoje são encaradas como “lacração” mas que já eram desenvolvidas quase 20 anos atrás na franquia.

O objetivo desse texto não é ser um review da fase do Chuck Austen e muito menos um resumo dos eventos. É mais uma compilação de situações problemáticas e interessantes que eu identifiquei nessa releitura.

26 momentos dos X-Men de Chuck Austen

Antes de começar acho válido apontar que eu enxergo Chuck Austen como um escritor consciente. Não acredito que ele tocou em tantos vespeiros ao longo do seu run nos X-Men por coincidência ou ignorância.

Foi tudo consciente e penso inclusive que ele teve a melhor das intenções, querendo gerar uma real reflexão sobre as situações. Porém, em alguns casos, ele exagerou e perdeu a mão, mas em outros acertou em cheio.

1 – A X-Woman prostituta

A Stacy X foi uma personagem criada em 2001, um pouco antes de Austen assumir a franquia mutante, pelo escritor Joe Casey. Então Chuck acabou “herdando” ela na sua fase.

Mas o que surpreende aqui não é a ousadia de se ter uma prostituta assumida nos X-Men lá no início dos anos 2000, mas a forma como Austen explorou a relação dela com os outros X-Men.

Eles frequentemente a tratavam mal, como se o fato dela já ter se prostituído a tornasse menos digna de estar ali. E penso aqui que o objetivo de Austen não foi perpetuar o pensamento crítico as prostituta, mas mostrar como que os X-Men, no mundinho perfeito deles, apesar de lutar pela diversidade, não sabem lidar muito bem com isso.

É uma crítica semelhante a que os Morlocks já indagaram aos X-Men muitas vezes.

2 – A vagabunda Stacy X

Essa trecho aqui é o Noturno resumindo brevemente cada integrante dos X-Men na introdução de uma das edições. Achei “curioso” que a Stacy X, que já é constantemente hostilizada, foi definida como “vagabunda”.

E é até surpreendente que tenha sido o bom moço e religioso Noturno quem a definiu assim. Porém, como veremos adiante, o Noturno nessa fase se mostrou bem ousado.

3 – Rivalidade feminina

Austen colocou Stacy X, interessada no Anjo e rivalizando com a Escalpo, que também estava interessada nele. Mas aqui é um dos pontos em que entendo que o escritor perde a mão.

Além da sexualização exagerada da Escalpo, que é apenas uma jovem de 19 anos, temos o Fanático e o Wolverine em posições de machos sedentos por uma briga feminina. Ok, isso é até condizente. Porém, ele coloca junto na cena, tendo o mesmo comportamento, o jovem mutante Anfíbio, que é apenas uma criança.

Essa é a continuação da cena anterior. Basicamente temos uma personagem que é prostituta julgando outra mulher por estar interessada no mesmo homem.

Mulheres tendo comportamento machista não é algo tão raro assim, na verdade é bem comum. Porém entendo que Austen erra ao dar essa voz justo para a Stacy X, que poderia representar muito mais empoderamento.

E ele resume tudo isso a uma rivalidade de duas mulheres, que são extremamente diferentes, por um homem que dentro da franquia é um símbolo sexual.

4 – Homofobia

Esse é mais um dos acertos de Austen. Ao inserir o mutante Estrela Polar nas histórias, ele não deixa de explorar a sua sexualidade. Afinal, esse é o primeiro personagem da Marvel a se assumir gay, lá na década de 90.

Austen também acerta ao deixar claro que a homossexualidade não é uma opção. Ninguém opta por ser ou não ser gay. A pessoa nasce assim, o que relaciona a questão de forma muito clara com os mutantes.

Ao longo da edição a história também utiliza o termo “homofóbico“, o que me surpreendeu bastante. Não me recordava do fato dessa palavra já ser algo tão presente no nosso vocabulário em 2002 e fico muito feliz de ver isso representado nas páginas dos X-Men.

5 – Momento emotivo

Um jovem mutante ativa seus poderes, porém o seu poder consiste em ele mesmo explodir. Os X-Men surgem para auxiliar o jovem e encontram a casa que ele explodiu detonada e com alguns sobreviventes.

O Anjo resgatou a irma do jovem que ao acordar um pouco tonta, no colo do Anjo, pensou ter morrido.

6 – Frutinha

Em um primeiro momento não vou mentir que achei bastante errada essa cena. Principalmente pelo fato que na continuação dela o jovem tenta fugir do Estrela Polar por medo de virar gay também.

Mas como eu falei anteriormente, continuando a leitura fica bastante claro que isso é feito em tom de crítica. O próprio Austen já havia definido mais cedo na própria HQ que a homossexualidade é algo que nasce com a pessoa e não é adquirido ao longo da vida.

Na continuação da conversa, o garoto após conversar bastante com o Estrela Polar, acaba se desculpando pelo que disse. O jovem até destaca que nunca havia conhecido uma pessoa gay.

Porém ele segue explodindo e a tendência é que ele não sobreviva mais por muito tempo. E após confessar que foi agredido pelo pai por chorar, ele até fala: “por que meu pai não falou assim comigo?“, remetendo que o Estrela Polar em pouco tempo se mostrou muito mais atencioso do que o seu pai a vida inteira.

Um pai machista, criou um filho machista que encontrou em seus últimos momentos conforto nos braços de um herói gay, que ficou ao seu lado até o último suspiro.

7 – Abuso sexual

Aqui novamente temos a Stacy X protagonizando uma polêmica cena. A história dá a entender que a mutante foi abusada sexualmente pelo seu padrasto. E que os abuso só pararam quando ela ativou seus poderes e passou a ter escamas pelo corpo.

8 – Macho tóxico

Aqui temos um clássico macho tóxico. Conversar em um relacionamento? Manter uma boa comunicação? Não. Vamos dar um pé na bunda e esperar que a mina entenda que o amava e peça para voltar.

É o homem achando que é o centro do relacionamento é que tudo gira em torno dele. E mais, entende que a mulher lhe deve satisfação.

9 – Padres e crianças

Destaco esse momento pela piada pesada feita pela Stacy X. A mutante dá investidas para cima do Noturno, que era um Padre nessa época.

Quando ele recusa ter qualquer envolvimento com ela e argumenta ser um Padre, ela ironiza que ele não é do tipo que adora criancinhas. Uma clara referência ao fato que há no Vaticano diversas acusações de Padres e figuras de destaque na igreja que já abusaram sexualmente de crianças.

10 – Exagero na sexualização

A franquia X-Men sempre teve muito presente o elemento sexual. Não de maneira escancarada, mas sempre esteve lá. Entre os mutantes há diversos casais que terminam, reatam e assim por diante.

Porém nessa página em questão Austen extrapola todos os limites. Ainda mais por vermos a enfermeira Annie usando expressões completamente fora de tom ao falar com o seu filho, uma criança.

11 – Nem sei o que dizer

Se a cena anterior já foi muito esdrúxula, essa então nem se fala. É nada mais do que o filho de Annie (uma criança), um mutante com poderes telepáticos, entrando em uma espécie de transe e tentando beijar o Destrutor (que estava em coma). É uma das decisões de roteiro mais absurdas dessa fase.

12 – O clássico machismo

Sabe aquele lance de hetero top ficar dando nota para as mulheres, avaliando unica e exclusivamente os seus atributos físicos? É disso que se trata o trecho acima.

E faz até sentido que seja o Fanático quem está fazendo isso. Um homem que usa muito mais as mãos do que o cérebro e que nunca foi conhecido pela inteligência. Então ok, um homem burro sendo representado como machista. Faz sentido.

O problema é que, a exemplo do que já aconteceu antes, Austen coloca o mesmo machismo saindo da boca de Sammy, que é apenas uma criança.

13 – Crítica à Igreja

Austen ao longo do seu run nos X-Men faz duras críticas a igreja. Mas ao contrário de outros momentos onde acaba exagerando, aqui ele acerta em cheio.

Ele demonstra como o fanatismo religioso é algo maléfico e precisa ser combatido. Se nas HQs esses religiosos perseguem mutantes, no mundo real as vítimas atuais são a comunidade LGBT.

14 – Boiolas?

Esse aqui é um ponto que destaco, mas que infelizmente diz muito sobre a época em que a revista foi lançada. Hoje em dia seria inconcebível ver em uma revista um herói usando o termo “boiola” como algo ofensivo. Ainda mais o Homem de Gelo que atualmente é um dos principais personagens LGBT da Marvel.

Mas lá por 2002/2004, quando essa história foi publicada, infelizmente isso não era tão incomum assim. Porém, vale uma ressalva muito importante aqui.

A utilização do termo “boiola” não foi uma escolha de Austen. Na HQ original consta a palavra “fools“, que em uma tradução poderia ser “tolos” ou “idiotas“. A palavra “boiola” foi uma escolha da Editora Panini na época.

15 – Despedida de Solteira

Particularmente achei de mal gosto a escolha de Austen de ao escrever a Despedida de Solteira da Polaris, que estava para se casar com o Destrutor, levar o Estrela Polar, que é homossexual, para uma noitada com as mulheres.

16 – Despedida de Solteiro

As infelicidades, no entanto, não se resumiram a Despedida de Solteira de Polaris. Na festa de Destrutor as coisas não foram melhores.

Noturno, que até algumas edições atrás era um Padre, contratou uma mutante transforma para fazer strip-tease para os homens. Mas o pior foi que solicitaram para a moça assumir a forma de Annie, a enfermeira que trabalhava no Instituto Xavier e era apaixonada pelo Destrutor.

As piadas durante a despedida também só tornaram tudo pior. Ocorrendo piadas sobre fetiche por freiras, ruivas e menores de idade.

17 – A louca é a mulher

Além de toda a rivalidade feminina presente nas histórias de Austen, durante o tão esperado casamento de Polaris com Destrutor, Alex abandona a noiva no altar.

Lorna então, abandonada, a vítima da situação, entra em surto e ataca todo mundo, passando por vilã. Uma mulher histérica. A louca. Péssima forma de representar uma heroína.

18 – Pedofilia

A insistência do run em falar sobre abuso infantil chega a ser doentia. Primeiro é o Estrela Polar que questiona se a amizade do Fanático com o jovem Sammy não tem algum cunho sexual.

Na sequência é o Fanático quem chama o Estrela de “marica” e ainda induz que por ele ser gay deve gostar de crianças.

Ok, aqui acaba funcionando a utilização do troglodita preconceituoso.

19 – Mulher-Hulk

Uma das maiores piadas desse run foi por anos o fato da Mulher-Hulk ter caído no papo do Fanático e ter ido para a cama com ele. Essa é uma caracterização que foge demais de toda a construção da Jeniffer Walters.

20 – Violência doméstica

Austen erra muito e erra feio, porém quando acerta também costuma acertar em cheio. Nessa página ele mostra como o sistema é falho e não protege de fato as mulheres contra o machismo existente dentro das suas próprias casas.

As Leis existem. Os policiais existem. Os programas de proteção existem. Mas nem tudo funciona para todo mundo.

21 – Machismo e racismo

Aqui Austen acerta novamente colocando as caracterizações corretas nos personagens certos. Um policial de uma cidade do interior dos Estados Unidos, apaixonado pela mãe de Míssil e Paige.

Porém, ele é preconceituoso, racista e machista.

22 – Confronto de ideias

O embate ideológico entre Magneto e Xavier sempre foi um dos temas mais importantes da franquia X-Men. Quanto Magneto morreu, quem travou um bom debate com Charles foi Polaris, a princesa do magnetismo.

Muito interessante acompanhar os pontos de vista distintos dos dois personagens sobre o caminho que a comunidade mutante deve adotar após Magneto destruir quase toda NY.

23 – O cidadão de bem

Aqui temos um clássico caso de humanos e seus preconceitos contra os mutantes. Porém, o engraçado dessa cena é que poderia muito bem ser o que aqui no Brasil chamamos de “cidadão de bem” atirando um tijolo em Emma Frost, não é mesmo?

Bom, esse é o nosso compilado de momentos polêmicos no run de Chuck Austen nos X-Men. Há muitos acertos e erros, porém, particularmente, é um a fase que gosto bastante.

A narrativa flui bem, os desenhos são ótimos. E mesmo as escorregadas do roteirista, pelo menos hoje em dia, servem para nos fazer refletir sobre os absurdos.

Mas e você, caro leitor, o que pensa do run do Chuck Austen nos X-Men? Gosta dessa fase? Deixe a sua opinião nos comentários.

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