X-Men Red #3 e o direcionamento da opinião pública nas mídias sociais

De tempos em tempos, os X-Men são repaginados com a inclusão de novos membros para trazer discursos que estão em voga no contemporâneo ou que simplesmente são do interesse particular dos autores. A primeira grande adição nesse sentido nos X-Men foi o time internacional em Second Genesis, publicada em Giant-size X-Men #1, lá em 1975 . Esse padrão se seguiu com vários outros membros em várias outras fases, mas o objetivo aqui não é ficar em informações wikipédicas.

A mais recente adição nesse sentido foi a personagem Trinary na revista X-Men Red, do desenhista Mahmud Asrar (Vingadores) e do escritor Tom Taylor (Novíssima Wolverine). Trinary basicamente é uma personagem indiana que se comunica e controla tecnologia – dependendo da complexidade, claro.

Pausa pra apreciação de cena maneraça:

E o que é que uma personagem com um poder nem tão original assim pode trazer de novo pro mundo? Bem, não é uma questão de o poder ser novo ou não, mas de como trabalhar e que discussões levantar.

Lançada na quarta-feira passada, 11 de abril, X-Men Red #3 continua e aprofunda discussões colocadas desde o primeiro número, com comentários cada vez mais atuais sobre questões políticas nos Estados Unidos – e, mais importante, que têm ressoado inclusive para o Brasil nessa correria pré-eleitoral.

A questão é: Trinary detecta que existem forças semi-ocultas que estão controlando mensagens latentes nas mídias sociais e induzindo pessoas com comportamentos específicos a ter reações de ódio contra a população mutante. Basicamente, o que acontece é uma propagação de discursos e comportamentos específicos através de algoritmos sociais que podem ser explorados e influenciados. Isso lembra alguma coisa?

Recentemente, tivemos uma polêmica com a informação de que a empresa Cambridge Analytica roubou dados (metadados) de usuários de redes sociais e utilizou uma larga rede de análise de comportamento social para fins de propaganda comercial e política. Pior: esses dados podem ter tido impacto direto na eleição do Presidente Donald Trump.

A empresa Ponte Estratégica, parceira da Cambridge Analytica no Brasil, chegou a ter os serviços cogitados por um partido político para direcionar as propostas de campanha eleitoral. Como o escândalo estourou antes e ficaria feio manter o contrato com a empresa, os acordos com o partido foram cancelados.

Mas esse debate não se limita apenas à Cambridge Analytica, o crescimento de órgãos que se dizem apartidários, mas tem o foco em criação de notícias falsas (fake news) a partir de “tanques de pensamento” (think tanks) para criar um doutrinamento ideológico não é pequeno.

Desde as Jornadas de Junho de 2013, esse movimento tem crescido cada vez mais. São cada vez mais frequentes as correntes de whatsapp falando sobre o Jean Wyllys e a Pablo Vittar entrando de mãos dadas nas escolas e fazendo sexo sem camisinha, enquanto pregam a importância da ideologia de gênero na criação de um Brasil comunista e pecador, tem aumentado cada vez mais com a proximidade das eleições em outubro.

Além, é claro, das difamações sem fundamento depois da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes – inclusive por parte de uma desembargadora.

O trabalho publicitário de pseudo-jornalismo chega a um nível alarmante de ir contra os direitos humanos (no caso, mutantes) e pregar discurso de ódio contra minorias e direitos sociais conquistados com décadas de suor e sangue de uma oposição política que era (e é) perseguida violentamente até hoje.

Ah, X-Red #3 também tem um plot lá da Cassandra Nova voltando e tocando o terror na porra toda, matando criancinhas e falando pro cadáver infantil ir “proteger wakanda”. A edição em si acaba com a Tempestade dizendo “Proteger Wakanda” e atacando nosso grupo de heroínas e herói lindos, mas acho isso menos interessante.

Texto: Gustavo Monlevad

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