Uma carta de despedida ao meu amigo Bendis

Brian Michael Bendis foi, nos últimos 18 anos, um dos principais escritores da Marvel. Começou a sua história na editora escrevendo o Homem-Aranha Ultimate, em 2000, e por incrível que pareça ele ainda é o roteirista dessa HQ. São 18 anos escrevendo a mesma publicação, um feito para poucos.

Mas essa história está chegando ao seu final. A DC Comics e Brian anunciaram hoje que o escritor está mudando de casa. Não vai mais escrever o Homem-Aranha, Homem de Ferro e o Capitão América, agora ele cuidará do Batman, Superman e da Mulher Maravilha.

Bendis não era apenas um roteirista qualquer na Marvel, ele escrevia roteiros para animações, jogos de video game e participava de um seleto grupo criativo que auxiliava Kevin Feige nas produções cinematográficas da Marvel Studios. Agora ele abre mão disso tudo para iniciar uma jornada, ainda misteriosa, na concorrente.

Dito isso, publico aqui uma carta de despedida para esse, que para mim, é um dos maiores nomes que já passou pela Marvel em sua história:

Uma carta ao meu amigo Bendis

“Meu amigo Bendis, a gente nunca conversou, salvo quando tu respondeu algumas perguntas minhas no teu Tumblr, mas não acho que isso conte como uma conversa de verdade, mas por tudo o que tu já fez na Marvel, eu te considero meu amigo. Nos últimos 18 anos tu vestiu a camisa da Marvel como poucos e isso é admirável.

É incrível como lá em 2000, quando ainda era um novato no mercado mainstream, tu conseguiu pegar e recriar toda a mitologia do Homem-Aranha. Atualizou o personagem para o século 21 de uma forma tão impecável que hoje, 17 anos depois, o personagem está sendo adaptado da mesma forma para os cinemas.

Em dezembro Bendis vai comemorar 18 anos escrevendo a mesma HQ. Foto: Divulgação.

A propósito, não foi só o Homem-Aranha que tu recriou né? Tu remodelou quase que o Universo Marvel inteiro nesse processo. Com ajuda do Mark Millar, é claro, mas foi você quem abriu as portas, limpou o salão, deu a festa e depois fez a limpeza na hora da despedida.

Recriar toda uma linha inteira, gerando um universo a parte e independente já seria uma tarefá impressionante, mas você foi além. Pegou os Vingadores, desacreditados, escanteados, quase nulos na editora, e os colocou no centro das atenções. A Queda? Dinastia M? Guerra Civil? Invasão Secreta? O Cerco? Não importava a história, lá estava a equipe sendo fundamental de alguma forma para a resolução da história. E isso é mérito teu.

Bendis e Millar chegaram a disputar nos bastidores quem iria escrever os Vingadores. Foto: Divulgação.

Como é que ninguém havia pensando em colocar os principais heróis da editora em uma revista que, em tese, deveria reunir os seus maiores personagens? Pois é, parece óbvio, mas foi tu quem teve de sugerir e fazer isso acontecer. Homem-Aranha e Wolverine nos Vingadores foi um sonho nerd realizado.

Se por um lado os fãs dos Maiores Heróis da Terra serão eternamente gratos a ti, por outro lado talvez os seguidores da franquia mutante não te adorem tanto assim. Com o plot da Dinastia M você conseguiu cumprir a missão que nenhum vilão tinha conseguido: quebrar de vez os mutantes. Com três simples palavras, “Chega de mutantes“, tu varreu o mapa inteiro.

Não leve para o pessoal, os leitores mutantes tem dificuldade em entender que os X-Men são apenas uma equipe fictícia e levam esses acontecimentos para o lado pessoal. Como Jonathan Hickman sempre gosta de dizer, poucas coisas são tão chatas quanto um fã dos X-Men. O fato é que a dizimação mutante desencadeou um dos períodos mais interessantes da história da franquia, que durou de 2005/2006 até 2012. Quando aí sim você colocou as suas mãos em All-New X-Men e Uncanny X-Men.

Mas você não se resumiu apenas em criar boas histórias com os clássicos personagens, você foi além, criou bons personagens com histórias que agora já são um clássico. Quem olha o MCU hoje nem acredita que a Maria Hill, a Tremor, a Jessica Jones e até a Torre dos Vingadores são criações suas. E tenho certeza que em um futuro não muito distante seremos apresentados ao Miles Morales e a Riri Williams em versões live action.

Bendis é um dos maiores criadores da Marvel atual. Foto: Divulgação.

Obviamente o caminho não foi fácil, teve acerto e erros. Mas a gente releva as cerca de 50 edições tenebrosas dos teus Guardiões da Galáxia e focamos nossa atenção no teu aclamado Demolidor, que inclusive rendeu três prêmios Eisner entre 2002 e 2003.

Juro que vai ser difícil acompanhar semanalmente os lançamentos e não ter mais o amado “bendistalk”. Eu sei que muita gente usa isso pra te diminuir, mas eu acho que é um dos teus maiores méritos. São diálogos que podem parecer rasos, mas são incrivelmente realistas.

Quem é que vai escrever falas como: ‘Senhora, saia da minha vida ou eu vou comer o seu cachorro! E quem sabe eu até posso matá-lo antes. E quando eu finalmente cagar os seus ossos, usarei o seu outro cachorro para limpar a minha bunda‘? Só tu consegue fazer esses diálogos.

Bendis levou o Eisner de Melhor Escritor duas vezes e o de Melhor Série. Foto: Divulgação.

É por tudo isso, meu amigo, que te desejo tudo de bom e de melhor nesses novos desafios. Se renovar é preciso, respirar novos ares, ter novas experiências e se desafiar novamente, que nem tu fez quando criou a linha Ultimate. Tenho certeza que você voltará pra tua casa com uma determinação ainda maior. Boa sorte Bendis, até logo.

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