Um retrocesso chamado X-23 (mas uma estreia bacaninha)

Premiada por seu gibi independente This One Summer, Mariko Tamaki conquistou, merecidamente, seu lugar entre roteiristas das Duas Grandes. Mas escrever uma Graphic Novel fechada e revistas mensais dentro de uma cronologia sobre a qual você não tem controle criativo total são experiências bem diferentes. Depois de alguns títulos sem muito destaque, ela parece estar se adaptando melhor à narrativa periódica de super-heróis.

X-23, estréia da ex-Wolverine Laura Kinney na iniciativa Fresh Start, vai direto ao ponto. A primeira página, como de costume em títulos número 1, serve como retrospectiva rápida. Resume alguns pontos do histórico da personagem que a roteirista se propõe a trabalhar, neste caso sua criação como clone e arma mutante.

A página azulada de retrospecto é dividida em 18 quadros iguais, desenhados com o ângulo fechado equivalente ao de uma lente tele-objetiva. Essa técnica permite focar em pequenos elementos e pedaços da narrativa de criação de Laura, como peças que viriam a formar sua identidade.

O zoom-in e zoom-out nesses quadros também servem para revelar e ressignificar as imagens que acompanhamos. É um trabalho cuidadoso e meticuloso. Nos faz concentrar em pequenos pedaços e elementos enquanto nos distrai com os objetos avermelhados num fundo azulado. Tudo isso para guiar nossos olhos demoradamente e nos acostumar com uma narrativa presa num gradeado pequeno e contido – como a Laura se sentia no passado – e depois se abrir, na página seguinte, numa splash page dupla em que a protagonista e sua pequena clone, Gabby, estão praticamente voando, com braços abertos e garras para fora, em direção ao seu objetivo.

A splash é dinâmica e abre para uma sequencia de ação que se torna mais movimentada pela inércia das lembranças na primeira página. Os traços são finos e as cores também são mais claras e quentes, enquanto a tele-objetiva é trocada por uma grande angular que dá impressão de grande amplitude do que se tornou a personagem no presente. Mas talvez essa noção de presente seja um problema.

Tom Taylor, durante todo o seu run na Novíssima Wolverine, desenvolveu a personagem para que ela superasse os traumas de seu passado e se tornasse independente. Um dos maiores símbolos disso era o abandono da sigla X-23 e a afirmação de que ela era mais do que apenas uma letra e um número.

Sem explicação na revista, depois de uma carreira plena como Wolverine, Laura volta a se chamar X-23. E não há motivo pra isso: Logan ainda não retornou e Laura não tem porque abandonar o legado que conquistou. Enfrentar fantasmas do passado não é justificativa para adotar uma identidade que, em si, é um fantasma. Mas o peso simbólico disso parece passar direto e inconsequente.

[Nota do editor: já fizemos um texto explicando detalhadamente o retrocesso que a personagem está sofrendo. Leia mais em A Indignação seletiva dos nerds com a diversidade nos quadrinhos.]

Bem, voltando, depois de um início empolgante, o Fera entrega pistas de outra pesquisa científica relacionada a regeneração genética e explica que nem toda ciência é usada para o mal. Imagino que isso poderá ser usado mais adiante como um plot moral para o mutante.

Ainda no Instituto Xavier, nossas heroínas encontram as trigêmeas Stepford – que antes eram quíntuplas -, a caminho de celebrar seu aniversário. Gabby mostra, então, porque é uma personagem tão importante: fica obcecada com as irmãs – que também são clones – estarem comemorando aniversário.

Quando Laura evita falar sobre seu próprio aniversário, Gabby a questiona por considerar um ritual importante pra ter algum senso de normalidade em suas vidas. É uma personagem leve e cômica, mas acima de tudo serve para botar a protagonista em cheque, dando um grande sentido de humanidade e proximidade.

De alguma forma, ela ajuda a afastar Laura de ser aquilo que foi criada para ser: um instrumento para cumprir objetivos e missões específicas. Um aniversário não tem finalidade utilitária prática, o que pode tornar o rito de difícil compreensão para quem foi cultivada para cumprir tarefas simplesmente. Mas essa falta de sentido útil é justamente o que torna o ritual tão humano. E esse desejo é parte do que torna Gabby tão especial.

A edição volta a se focar nas irmãs Stepford e é quando as sarjetas – o espaço entre os quadros – de branco se torna preto, o que dá um senso de peso em contraste com a leveza das páginas anteriores. As cores também se tornam mais escuras e frias e a luz assume papel mais dramático.

Esse ambiente menos amigável é onde as irmãs vão comemorar seu aniversário. E a comemoração envolve justamente a cientista apontada pelo Fera no meio da edição e duas clones das irmãs que vimos morrer em retrospecto: Esme e Sophie.

As Stepford levaram a cientista para tentar recriar as irmãs que perderam, mas o processo deu errado. Numa tentativa de salvar Sophie, o clone de Esme a injeta com uma seringa de conteúdo forte e vermelho.

Como na primeira página, o fundo de cores frias e azuladas destaca o elemento em vermelho. E não é a toa: num zoom, vemos a inscrição “Arma X”, evidenciando que as irmãs estão tentando se salvar justamente com o que a Laura e Gabby estão tentando impedir: experimentos genéticos com o DNA de Logan.

Talvez, a partir disso, a discussão moral do Fera seja retrabalhada nas próximas edições; levantando questões sobre até que ponto algo bom pode sair de experimentos “ruins”, como foi o caso da própria vida de Laura.

Apesar de ser uma edição introdutória, pontos interessantes foram levantados e alguns caminhos traçados para o futuro. A arte de Juann Cabal é consistente e suas perspectivas narrativamente precisas. A cor de Nolan Woodard não é apenas um elemento de composição, mas tem finalidade narrativa essencial.

E todo o orquestramento cuidadoso de Tamaki aponta para uma direção de maior maturidade do que seus trabalhos anteriores, apesar da inconsistência discursiva de utilizar o nome “X-23” numa revista que promete continuar explorando a humanidade de uma personagem tão complexa. No fim, parece ser mais uma imposição editorial do que uma escolha criativa, uma vez que Logan está voltando e precisa ter seu manto livre.

Mas uma imposição editorial também carrega um discurso muito forte. E hoje, o discurso parece ser o de retirar personagens que lutaram e conquistaram os principais mantos de uma editora por mérito próprio e devolver os mantos para uma velha geração que muito cativou, mas poderia abrir espaço para outros.

Retirar de suas posições personagens que ressignificaram o legado de seus mestres e trouxeram uma mensagem nova e afirmativa para um mundo novo, mas que ainda vive em negação.

Na psicanálise, o Complexo de Édipo serve como analogia da morte simbólica dos nossos pais para que possamos assumir nosso lugar no mundo. Mas num universo em que os pais sempre voltam dos mortos, parece nunca haver lugar para crescimento de novas ideias e afirmação plena de uma nova geração.

X-23 não é apenas um nome. É o símbolo de um retrocesso velado de todo um processo que demorou anos para engatar.

Mas pelo menos a revista é bacana.

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