Tudo o que você precisa saber sobre a situação envolvendo a Sony, Disney e o Homem-Aranha

Na última semana um dos assuntos mais comentados na internet foi o fim do acordo entre a Disney e a Sony para a utilização do Homem-Aranha no MCU.

Esse texto tem como propósito explicar toda a situação que envolve esse acordo, desde os primórdios dos direitos cinematográficos do personagem. Então prepare-se, pois a história é longa.

Crise na Marvel Comics

Primeiro de tudo, vamos deixar claro que a Marvel possui vários braços diferentes que respondem a um único corpo: a Marvel Entertainment. Sendo assim, a Marvel Comics produz histórias em quadrinhos, a Marvel Television fica responsável pelas séries de TV e animações televisivas (inclui-se aqui parcerias com streamings como Netflix e Hulu) e a Marvel Games cuida da parte relacionada a jogos de video-game, seja para consoles ou mesmo os mobile, por exemplo.

Você deve ter sentido falta da empresa da Marvel que mais dá lucro no momento, não é mesmo? A Marvel Studios, responsável pela produção de filmes para o cinema e minisséries para o Disney+, desde 2015 foi “emancipada” da Marvel Entertainment.

Devido ao sucesso do estúdio e uma rixa entre o Presidente da Marvel Studios, Kevin Feige e o CEO da Marvel Entertainment, Ike Perlmutter, os executivos da Disney resolveram que a Marvel Studios agora responde diretamente a Disney e não mais para a Marvel Entertainment, dando mais liberdade criativa para as produções.

Dito isso, lá na década de 90, muito antes do MCU surgir como uma possibilidade, a Marvel Comics (lembrem-se, a empresa responsável apenas pelos quadrinhos) enfrentava uma grande crise financeira.

Apesar das suas HQs ainda terem vendas muito boas, as decisões estratégicas e comerciais foram um fracasso. Com dívidas até o pescoço, a Marvel encontrou na venda dos direitos cinematográficos dos seus personagens a oportunidade de equilibrar os cofres.

Apesar de acharmos a decisão um enorme absurdo atualmente, na época era um negócio interessante, pois a Marvel tinha apenas o propósito de publicar quadrinhos, nem sonhava em ter um estúdio de cinema próprio.

Sendo assim, os direitos cinematográficos do Homem-Aranha foram parar na Sony Pictures, que pagou cerca de $10 milhões de dólares. Para se ter uma noção de quão irrisório é este valor atualmente, somando a bilheteria dos sete filmes live action feitos pela Sony com o Homem-Aranha do ano 2002 até o momento, tem-se a quantia de quase $6 bilhões em bilheteria.

Homem-Aranha na Sony

Em posse da Sony, o estúdio realizou primeiramente uma trilogia de filmes com o herói, todos comandados pelo diretor Sam Raimi (de The Evil Dead). O primeiro foi revolucionador e até hoje inspira muita coisa que é feita no MCU. Com $821 milhões de dólares arrecadados, foi um sucesso financeiro.

O segundo, lançado em 2004, apesar de ser aclamado pela crítica e pelos fãs, além de até hoje ser considerado um dos melhores filmes de heróis já feito, registrou uma queda na bilheteria, arrecadando “apenas” $783 milhões.

Já o terceiro e último longa dessa trilogia, que saiu em 2007, sofreu com diversas interferências criativas do estúdio e registrou um fenômeno diferente. Apesar de ser o longa com a maior recepção negativa por parte da crítica e dos fãs, foi comercialmente o maior sucesso, arrecadando $890 milhões.

Com Sam Raimi abandonando o projeto após as interferências criativas do estúdio e o elenco não se disponibilizando a reprisar os papéis, a Sony então promoveu um reboot na franquia, buscando atualizar o herói para uma nova geração.

A Disney, o merchandising e o Espetacular

Em 2009 o mundo do entretenimento foi surpreendido com a informação de que o mega conglomerado da Disney comprou a Marvel Entertainment pela bagatela de $4 bilhões de dólares.

A compra permitiu que a Marvel Studios, que estava recém iniciando o seu gigante universo compartilhado, tivesse muito mais confiança para investir nas suas produções.

O mega sucesso da franquia após Vingadores, em 2012, muito se deve a compra da Disney. Afinal, até 2009 os únicos filmes do MCU lançados haviam sido Homem de Ferro, que estava com a continuação sendo gravada, e O Incrível Hulk, que foi o primeiro e único fracasso do estúdio até o momento. Consequentemente, foi aí que a história da Disney com a Sony teve início.

Outra situação que impactou o mercado ocorreu em 2011, quando, após um trimestre fiscal bastante negativo, a Sony vendeu para a Disney os direitos de merchandising do Homem-Aranha.

Na ocasião, a Marvel vendeu para a Sony uma parte minoritária dos direitos cinematográficos do Homem-Aranha que ainda possuíam e em contrapartida compraram todos os direitos de merchandising.

Os direitos de merchandising dão para a Disney a liberdade para comercializar lancheiras, roupas, bonecos e realizar qualquer tipo de ação publicitária envolvendo o Homem-Aranha, mesmo que tenha como temática os filmes desenvolvidos pela Sony. Se explorado da forma correta, o dinheiro arrecadado através do merchan pode ser muito superior as cifras das bilheterias.

Em 2012 então foi lançado O Espetacular Homem-Aranha, o primeiro filme do reboot que também não teve uma recepção positiva por parte da mídia e dos fãs. O resultado foi a bilheteria mais baixa da franquia até aquele momento: $757 milhões.

O Espetacular Homem-Aranha 2, lançado em 2014, apesar de adaptar parte de uma das histórias mais icônicas do herói, “A Morte da Gwen Stacy“, novamente não agradou o seu público. O resultado foi a pior bilheteria da franquia: apenas $708 milhões.

Andrew Garfield stars as Spider-Man in Columbia Pictures’ “The Amazing Spider-Man,” also starring Emma Stone.

Apesar de um Espetacular Homem-Aranha 3 já estar em desenvolvimento e até um projeto envolvendo o Sexteto Sinistro estar sendo elaborado pela Sony, as bilheterias em queda da franquia colocaram tudo a perder.

Homem-Aranha no MCU

Em 2014, após a decepção que foi o Espetacular Homem-Aranha 2, a Sony foi alvo de um massivo ataque de hackers. Centenas de e-mails muito importantes da empresa foram vazados, revelando projetos que estavam em discussão.

Inclusive, até filmes foram acessados e disponibilizados na internet antes mesmo dos seus lançamentos. Foi um verdadeiro caos para a empresa.

Porém, entre os e-mails vazados, descobriu-se que a Sony e a Disney haviam iniciado uma negociação para inserir o Homem-Aranha no MCU, mas que ela não havia tido uma conclusão positiva.

Para contextualizar: em 2014 a Marvel Studios estava lançando Capitão América: Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia, sendo que já estava engatilhado para o futuro o filme Capitão América: Guerra Civil, que seria lançado em 2016.

Dada a repercussão extremamente positiva na internet acerca de um possível acordo entre a Sony e a Marvel Studios, os dois estúdios concluíram as negociações e finalmente se acertaram.

A partir de então ficou decidido o seguinte:

1 – O filme estaria sofrendo um novo reboot, o terceiro em menos de 15 anos. Dessa vez o ator escolhido para dar vida ao Homem-Aranha foi Asa Butterfield (Sex Education).

2 – Asa acabou deixando escapar na internet que havia sido escolhido para dar vida ao Homem-Aranha, antes do anúncio oficial da Marvel, então acabou perdendo o trabalho.

3 – O ator oficialmente anunciado para viver o Homem-Aranha no MCU foi então Tom Holland.

4 – A parceria entre a Sony e a Marvel Studios estaria funcionando da seguinte maneira: A Sony ficaria responsável por 100% dos custos e 95% do lucro. Já a Marvel Studios cuidaria da parte criativa (obviamente recebendo por isso, valor que está incluso nos custos da Sony) e ficando com os outros 5% do lucro do filme.

5 – Além de tudo isso, o acordo também permitia que personagens do MCU, como Nick Fury, Maria Hill e Homem de Ferro aparecessem nos filmes do Homem-Aranha, da mesma forma que o Amigão da Vizinhança também pode aparecer em Guerra Civil, Guerra Infinita e Ultimato.

6 – Não fez parte do acordo, mas é importante destacar que a Disney além dos 5% da bilheteria, também estaria lucrando 100% com o merchandesing do Homem-Aranha em todas as suas aparições.

O primeiro filme do Homem-Aranha no MCU se chamou “Homem-Aranha: De Volta ao Lar“, estreou em 2017, teve uma recepção consideravelmente positiva e arrecadou $880 milhões, se tornando a segunda maior bilheteria do personagem.

Já o segundo foi Homem-Aranha: Longe de Casa, que saiu imediatamente após Vingadores: Ultimato, filme de maior bilheteria da história do cinema, e teve uma recepção bastante positiva, se tornando a maior bilheteria da franquia do Aranha, com $1,115 bilhão de dólares.

O fim do romance MCU/Sony

Nesta semana começou a circular na internet a informação de que os estúdios rediscutiram o acordo pela participação do Homem-Aranha no MCU e não chegaram em um denominador comum. E como resultado o herói está de saída do MCU.

Conforme relatórios não oficiais de pessoas que tiveram acesso às discussões, a Disney gostaria de ter uma maior participação no lucro dos filmes do Homem-Aranha e para isso estaria disposta a arcar também com uma parcela maior das despesas.

O que se fala é que a Disney não estava satisfeita com os atuais 5% de bilheteria que recebe (além dos 100% de merchan) e então queria passar a receber 50%, dividindo igualmente com a Sony o ônus (despesas) e o bônus (o lucro).

Cabe fazer um adendo aqui, 50% dos custos de um filme como Homem-Aranha: Longe de Casa seria o equivalente a $80/100 milhões, já 50% dos lucros seria algo em torno de $550 milhões. Bastante desproporcional, não é mesmo?

Relatórios ainda indicam que executivos da Sony estavam dispostos a negociar e chegaram a fazer uma oferta para que a Disney ficasse com 25% do lucro, mas o conglomerado que recém comprou a Fox não ficou satisfeita com a proposta.

Sem esse acordo, a Disney não estaria interessada em ceder Kevin Feige para produzir e organizar criativamente os filmes do Homem-Aranha, pois entende que estaria cedendo um dos profissionais de maior renome que possui na empresa para uma concorrente direta.

Informações não oficiais também dão conta que a Marvel gostaria de ter controle não apenas do Homem-Aranha, mas de todas as propriedades intelectuais que o cercam, como o Venom por exemplo, podendo inserir o personagem no MCU.

Uma informação importante de destacar é que a bilheteria nesse momento de Homem-Aranha: Longe de Casa é de $1,115 bilhão de dólares e é a maior arrecadação de um filme da Sony.

Nenhum outro filme do estúdio acumulou tanta grana antes, o que poderia explicar o estúdio estar tão resistente em ceder uma porcentagem tão alta desse valor para a Disney.

Na quarta-feira a Sony através das suas redes sociais se manifestou oficialmente sobre essa situação envolvendo o Homem-Aranha. Conforme o tweet abaixo, o estúdio diz:

Muitas das notícias que estão circulando sobre o Homem-Aranha descaracterizaram discussões recentes sobre o envolvimento de Kevin Feige na franquia. Estamos decepcionados, mas respeitamos a decisão da Disney de não tê-lo como produtor principal de nosso próximo filme live action do Homem-Aranha.

Esperamos que isso mude no futuro, mas entendemos que as muitas novas responsabilidades que a Disney lhe deu – incluindo todas as propriedades recém-adicionadas da Marvel – não permitem que ele trabalhe em propriedades intelectuais que não possuem.

Kevin é fantástico e somos gratos por sua ajuda e orientação e apreciamos o caminho que ele nos ajudou a trilhar, seguiremos nesse trajetória.”

Ou seja, conforme a Sony, a Disney estaria abrindo mão do Homem-Aranha, que não é uma propriedade intelectual da qual eles tem 100% de controle, para focar a sua atenção em personagens recém adquiridos da Fox, como os X-Men, Quarteto Fantástico e Deadpool, por exemplo.

Apesar dessa declaração da Sony, da parte da Disney ninguém se manifestou sobre o caso … até a D23.

A D23 e a posição de Kevin Feige

A D23 é uma convenção que ocorre a cada dois anos e que celebra a história da Disney. No evento são revelados os planos futuros da empresa. E como não poderia deixar de ser, o assunto envolvendo o Homem-Aranha não ficou de fora.

Primeiro o ator Tom Holland, interprete do Homem-Aranha no MCU, fez o seguinte comentário no painel de Dois Irmãos, novo filme da Pixar que ele estará protagonizando:

Tem sido uma semana maluca, eu amo vocês todos do fundo do meu coração, eu amo vocês 3000

Tom Holland

A plateia o aplaudiu em peso, foi um dos atores mais ovacionados do evento. Ele voltou a falar sobre o assunto em uma conversa com o portal Entertainment Weekly:

Basicamente, nós fizemos cinco grandes filmes. Foram cinco anos incríveis. Eu tive o momento da minha vida. Quem sabe o que o futuro guarda? Mas tudo o que eu sei é que vou continuar interpretando o Homem-Aranha e tento o momento da minha vida. Será muito divertido, independentemente de como decidirmos fazer isso.

Tom Holland

Ou seja, mesmo que a Sony e a Disney não se acertem de maneira nenhuma e o divórcio entre os estúdios seja confirmado de forma irrevogável, ele seguirá interpretando o herói nos próximos filmes.

Porém, vale destacar, a fala de Holland não é definitiva. Ele destaca que o futuro do personagem ainda está incerto e que as negociações podem ser retomadas e um novo acordo costurado.

Kevin Feige, o Presidente da Marvel Studios, também comentou o assunto com Entertainment Weekly:

Nós sabíamos que o contrato [do Homem-Aranha no MCU] tinha um prazo de validade finito, contamos a história que queríamos contar e serei sempre grato por isso.”

Kevin Feige

É importante destacar que nas três manifestações, tanto da Sony quanto nas de Kevin Feige e Tom Holland, principalmente na do ator, nenhuma das partes é categórica em enfatizar o fim da parceria.

Todas lamentam ela chegar ao fim, mas é do interesse de todos que a parceria continue por mais tempo. Então, não tem nada decidido ainda.

Quando, lá em 2014, os e-mails vazados da Sony começaram a instigar os fãs a pedirem o Homem-Aranha no MCU, levou um tempo até que o acordo se concretizasse, mesmo com a opinião popular amplamente positiva à parceria.

A mesma coisa parece se repetir agora. A comoção geral na internet é para que o acordo entre os estúdios seja mantido. O assunto figura já há semana toda como um dos mais debatidos nas redes sociais. As ações da Sony chegaram a entrar em queda após as primeiras informações sobre o fim da parceria.

A Disney também tem um histórico de não dar o braço a torcer, ou pelo menos demorar para ceder. Em julho de 2018, após tweets com piadas de péssimo gosto do diretor James Gunn (Guardiões da Galáxia) vazarem na internet, ele foi imediatamente demitido.

Porém, na internet um movimento teve início exigindo a sua recontratação. Uma petição online com milhares de assinaturas circulou o mundo, mas nada parece ter sido o suficiente para fazer a Disney mudar a sua decisão.

Acontece que em março de 2019, subitamente, a Disney anunciou a recontratação do diretor, que estará voltando para escrever e comandar o filme Guardiões da Galáxia vol. 3.

Ou seja, a Disney no momento não aceita receber uma quantia inferior a 50% da bilheteria do próximo filme do Homem-Aranha, mas quem sabe com o tempo eles mudem de ideia.

Mas e você, caro leitor, o que está achando dessa confusão toda? A Disney está realmente querendo lucrar demais em cima de um filme da Sony? Deixe a sua opinião nos comentários.

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