Tem que acabar o fandom tóxico dos quadrinhos

Não é de hoje que o comportamento tóxico de leitores e fãs de super-heróis tem afetado negativamente a vida dos profissionais que trabalham com histórias em quadrinhos. Isso tem que acabar.

Um dos casos recentes mais famosos envolvendo assédio com escritores na Marvel envolve a autora Chelsea Cain (Harpia), que ao colocar a heroína Bobbie Morse usando uma camiseta se identificando feminista, recebeu mensagens de ódio no seu Twitter e resolveu deletar a sua conta por um período.

Outro caso popular na Casa das Ideias envolveu a ex-editora assistente Heather Antos, que também recebeu uma enxurrada de mensagens de ódio quando postou uma foto tomando milkshake com as colegas de trabalho. Na época, “leitores” associavam as vendas abaixo do esperado da editora com o fato de algumas HQs terem editoras do sexo feminino.

Mas esses são casos que receberam espaço de destaque na mídia por envolverem ataques massivos. A minha ideia não é falar exatamente disso. A questão é que os roteiristas/desenhistas sofrem constantes ofensas e são submetidos a diferentes níveis de assédio e isso não é bom para ninguém.

Para ilustrar o que estou falando, trouxe exemplos recentes envolvendo dois escritores atuais da Marvel: Leah Williams (X-Men Black) e Matthew Rosenberg (Fabulosos X-Men).

O caso Leah Williams

O primeiro exemplo é um caso já infelizmente comum, que é o machismo para cima de escritoras. Um usuário do Twitter resolveu compilar fotos da Leah usando decote para dizer que ela tem “os peitos mais espetaculares do editorial da Marvel“.

Obviamente não parou por aí, através do seu Tumblr, Leah compartilhou algumas mensagens que recebeu, tais como: “Eu estou sedento apenas de olhar para esses seus peitões. Você é solteira?” ou então “Vadia burra. Espero que um homem te coma direito logo.“.

A escritora destaca também que em meio a mensagens negativas e assédio, também recebe mensagens de apoio e elogios. No exemplo acima, inclusive, entre o assédio e uma pessoa chamando-lhe de gorda, há quem enviou uma mensagem positiva: “Você é linda e seu cabelo é absolutamente incrível. Eu espero que você tenha um ótimo dia 😀“. E isso tudo ocorreu no início dessa semana.

O caso Matthew Rosenberg

Porém, o exemplo acima é um tipo de assédio é mais “visível”. Qualquer pessoa em sã consciência consegue ver e entender a gravidade dessas mensagens. Mas há outra postura dos leitores junto aos criadores que é igualmente maléfica.

Muitos leitores acabam se tornando verdeiros fanáticos pelos seus personagens favoritos. Um exemplo que eu gosto de usar envolve a Tempestade. Se você escrever uma história em que ela se relaciona com o Pantera Negra, uma parcela dos leitores criticará a decisão, pois entendem que ela deveria namorar o Forge. Mas se o autor a colocar com o Forge, quem reclamará serão os fãs do relacionamento dela com T’Challa. Ou seja, não existe uma decisão correta.

E não se trata de o leitor não gostar, mas seguir a vida adiante. Normalmente eles enviam mensagens aos criadores. Alguns elogiando ou mesmo apontando criticas construtivas. Mas infelizmente tem aquela galera tóxica.

Invariavelmente a ofensa, a ameaça e o assédio vão se destacar, ganhar uma maior relevância. Ainda mais quando isso ocorre em grandes quantidades ou diariamente.

Na quarta-feira, lá nos Estados Unidos, foi publicada a revista Fabulosos X-Men Anual #1, que contou com o retorno do Ciclope. Acontece que em uma página da revista, onde temos um confronto com vários personagens, o desenhista Carlos Gomez acabou desenhando, acidentalmente, duas vezes a Tempestade.

Uma página de fãs da Jean Grey foi então no Twitter reclamar, marcando o escritor Matthew Rosenberg: “Isso é uma decepção e um grande erro que você cometeu. Você colocou duas vezes a Tempestade em um quadro em Fabulosos X-Men Anual. Eu acho que você nunca consegue fazer nada direito. Matthew Rosenberg, nessa cena era para constar apenas a Tempestade controlada pelo X-Man, não a versão regular“.

Apesar do surto do leitor ser exagerado, mas representar muito bem como os fãs ficam agressivos com os escritores por besteira, vale destacar que Rosenberg é roteirista e não desenhista. O equivoco, no caso, foi do artista Carlos Gomez.

Mas mais insano do que isso, essa edição específica foi escrita por Ed Brison (Velho Logan). Rosenberg não tinha qualquer relação com a revista e foi ofendido no Twitter.

Logo na sequência dessa situação ele anunciou que estará dando um tempo no Twitter. Confira abaixo o sincero desabafo do escritor sobre tudo isso:

“Agora parece ser uma boa hora para anunciar que eu vou abandonar ou cortar drasticamente meu tempo no Twitter em breve. 

Eu curti bastante interagir com os fãs, responder a perguntas, ouvir o que as pessoas gostaram ou não nos gibis. Tudo isso é o máximo e eu vou lamentar muito ter que me afastar disso.

Acho que todos podemos concordar como o Twitter, de diversas formas, se tornou uma plataforma que não melhorou o nível do diálogo, do acesso à informação, ou a situação do mundo. E talvez não deveria mesmo? Mesmo assim, eu sinto que com toda a parte boa que ele traz, vem junto muita mais coisa ruim.

Por outro lado, eu tentei tirar algumas horas por semana para interagir aqui com pessoas que compram os gibis. Eu achei que isso faria bem para mim e para os leitores. É como se fosse uma extensão do mesmo sentimento que me fez me inscrever para comparecer a 39 lojas especializadas em gibis e 17 convenções no ano passado. Eu acredito em acessibilidade.

Mas só nesta última semana já me xingaram, me insultaram, e deixei uma galera realmente chateada enquanto tentava conversar com eles. Eu consigo lidar com isso. Pra ser sincero, nem me incomoda muito. (Tirando a parte de deixar as pessoas chateadas. Isso me incomoda).

Mas eu sigo me perguntando o porquê. Eu entendo que as pessoas queiram reclamar, que elas são apaixonadas por estes personagens. Eu amo que a galera seja apaixonada por eles. Mas chega em um determinado ponto onde eu tenho que perceber que isso não é saudável, nem para eles, nem para mim.

Críticas são importantes e válidas. Eu leio as resenhas [que escrevem sobre meu material]. Eu tento ver o que as pessoas estão falando. Eu sempre abro um espaço nas convenções para ouvir o que as pessoas estão achando e fico feliz em discutir elementos das histórias que não funcionam para algumas pessoas. Acho até divertido.

Só que a discussão no Twitter é quase como você sair para jantar e ter pessoas te xingando assim que você entra no restaurante. Estraga sua noite? Não. Mas na 6ª vez em que isso acontece, talvez você queira visitar outro restaurante.

Eu digo que uma das coisas que eu amo sobre as histórias em quadrinhos, algo que eu sempre amei sobre elas, é a acessibilidade. Eu conheci Stan Lee, Todd MacFarlane e Jim Lee quando eu tinha doze anos e ainda considero aquele como um dos melhores dias da minha vida.

Então não é algo fácil para mim deixar de ser acessível. Não me traz qualquer felicidade. Mas eu também vejo tantos criadores, amigos e colegas, serem tratados de forma horrível todos os dias nesta plataforma. E a minha permanência aqui, de certa forma, me faz cúmplice na normatização desse comportamento.

E, sim, alguns criadores são babacas com fãs também. O que é péssimo de se ver. Mas eu mesmo já fui acusado disso algumas vezes. Quem sabe, talvez eu tenha sido [babaca]?” De qualquer forma, isso não melhora as histórias em quadrinhos. Não está melhorando a experiência de ninguém.

Não existe um grande pagamento para quem escreve quadrinhos. Não para 99% dos criadores ou para os fãs. A gente está aqui porque nós amamos isso. E ver gerações de fãs e criadores serem espantados pelo quão nojento é isso, parte o meu coração. E eu estou farto disso.

Eu provavelmente vou postar esporadicamente para promover meus quadrinhos ou comentar algo esquisito. Posso até voltar por completo, porque eu sou bem instável mesmo. Mas por ora, estarei me afastando.

Espero que todo mundo aqui se cuide, cuide dos outros e continuem a apoiar as coisas que amam.

Isso foi mimimi? Na minha cabeça não pareceu tão mimimi.”

O desabafo de Rosenberg é bastante esclarecedor e resume toda a situação. Diariamente os artistas sofrem esses ataques.

Jonathan Hickman (Vingadores), por exemplo, um dos escritores mais queridos pelos fãs atualmente, já declarou várias vezes que não simpatiza com a franquia mutante na Marvel.

Não por desgostar dos X-Men, mas pelo fato dos personagens terem os piores fãs. O fandom mais fanático e raivoso do mercado. O que é até irônico, se levarmos em conta que a essência dos personagens reside na “coexistência PACÍFICA” entre todos.

Veja bem, não se trata de não poder mais criticar os profissionais que trabalham nas editoras. Também não é um caso de censura. A mensagem aqui é muito simples: seja educado.

E como historicamente as pessoas sem noção apenas aprendem por meio da punição, pense que se os fãs da franquia mutante não fossem tão ensandecidos, Jonathan Hickman poderia estar escrevendo os X-Men hoje.

Grandes profissionais não vão se submeter a trabalhos que possuam fandom doido. Você terá de se contentar com escritores e artistas medíocres. #FicaDica