Mike Wieringo foi um dos mais fieis artistas que já trabalhou na Marvel

Mike Wieringo foi um dos mais talentosos artistas da Marvel no início dos anos 2000. Trabalhando em revistas como Quarteto Fantástico de Mark Waid e Homem-Aranha de Peter David, o desenhista fez sua história não apenas com o seu grande talento, mas se mantendo fiel à Marvel.

Joe Quesada, ex-Editor-Chefe da Marvel e atual Chefe Criativo da empresa, relembrou nessa semana uma tocante história que vivenciou com Wieringo. É uma lembrança que repercute o profissionalismo do artista. Traduzimos e lhes apresentamos na íntegra essa história. Confira:

Anos atrás, durante os meus primeiros anos como editor-chefe na Marvel, um dos nossos competidores decidiu assumir uma postura extremamente agressiva para roubar os nossos talentos, oferecendo uma grana boa.

Não me entendam mal, se alguém pode pagar nossos criadores melhor e os atrai, tá tudo certo e válido. Mas existe uma grande diferença com essa metodologia em particular, o que eu achei de péssimo gosto e foi algo que eu nunca tinha visto até então no mercado dos quadrinhos.

Ela quebrou uma espécie de acordo informal que estabelecia que se alguém oferecesse uma proposta melhor, deveria-se permitir que o criador terminasse qualquer compromisso que ainda tivesse com a editora anterior.

Por quê? Porque as editoras não iam gostar que fizessem o mesmo com elas, e porque trabalhadores freelancer dependem de sua reputação, e manter compromissos é uma parte importante disso, assim como talento, disponibilidade, capacidade de trabalhar com outros, etc. Deu pra entender.

Essas “novas” ofertas, porém, vieram com uma ressalva em particular:

É pegar ou largar.

Um criador teria que deixar a Marvel imediatamente e, na maioria das vezes, esses criadores já estavam no meio de compromissos com a gente (só pra saber, esse foi o começo das “guerras pela exclusividade”).

Não era só uma coisa completamente deselegante, mas também colocava os criadores em uma posição terrível de ter que quebrar um contrato porque, se eles não a aceitassem na hora, a oferta não valeria mais. Pelo menos era essa a ameaça.

E em todos os casos, mesmo sabendo a resposta (porque a gente tinha acabado de sair da falência), eu ia até o nosso editor Bill Jemas e perguntava se teríamos como fazer uma contraproposta. E nós perdemos um monte de talentos nessa época porque nenhum criador recusou essas ofertas…

Exceto por um.

Esse criador recebeu uma oferta enorme, muito dinheiro. Ele me ligou e perguntou se a gente poderia cobrir. Eu conferi e liguei de volta pra falar que era muito dinheiro pra gente, mas, até antes de eu terminar, ele agradeceu que eu tivesse tentado e pediu para que eu não me preocupasse; ele não iria a lugar nenhum.

Como todos os outros, ele ouviu que teria que sair imediatamente se quisesse o trabalho. Acontece que ele estava no meio de um arco do Quarteto Fantástico, e pediu para que esperassem caso realmente quisessem que ele fosse.

Ele tinha um compromisso com a Marvel, com seu roteirista e com seu editor, que ele só precisaria cumprir por mais dois meses e então seria todo deles. Eles recusaram. Ele deu as costas.

Esse é o tipo de homem que o Mike Wieringo era.

Eu não tenho ressentimento dos outros criadores que aceitaram os acordos e tiveram que quebrar seus compromissos, mas eu vou sempre lembrar do Ringo com o ÚNICO que cumpriu o dele.

No dia seguinte, eu jantei com o Bill e ambos concordamos que, mesmo não podendo cobrir a oferta original, iríamos dar um aumento para o Mike. Mike ficou muito agradecido, mas nada comparado a como ficamos por sua lealdade e por ele continuar a compartilhar seu incrível talento com a gente.

Esse é só um pequeno pedaço do legado do Mike e um motivo pelo qual as pessoas o amam tanto.  Ele era um artista e contador de histórias do caramba, mas também tinha muita classe.”

Mike Wieringo faleceu no dia 12 de agosto de 2007, aos 44 anos, após complicações no coração. O artista partiu deixando uma revista inacabada, uma edição de “O que aconteceria se … Quarteto Fantástico“, que reuniria novamente a formação composta por Wolverine, Motoqueiro Fantasma, Hulk e Homem-Aranha.

Em sua homenagem, a Marvel transformou a revista em “O que aconteceria se … Quarteto Fantástico – Um tributo para Mike Wieringo“. Como ele havia feito apenas sete páginas da HQ, a Marvel convidou os seguintes artistas para completarem a HQ, lhe homenagearem e fecharem a HQ com 48 páginas: Arthur Adams, Paul Renaud, Stuart Immonen, Cully Hammer, Alan Davis, David Williams, Sanford Greene, Humberto Ramos, Skottie Young, Mike Allred e Barry Kitson.

O roteiro e as páginas de Wieringo foram doadas para a “The Hero Initiative“, instituição de caridade que auxilia artistas das Eras de Ouro e Prata que se aposentaram sem pensões ou benefícios e que enfrentam dificuldades financeiras no final das suas vidas.

Desde 2017, nos EUA, há anualmente o Ringo Awards, uma importante premiação dos quadrinhos que leva seu nome.

Essa foi um pequeno resumo de quem foi o artista Mike Wieringo. No momento que descobrimos essas declarações de Quesada, soubemos que deveríamos compartilhar isso com vocês, nossos leitores.

As vezes nos preocupamos tanto com a cronologia das revistas que esquecemos dos grandes profissionais que são responsáveis por tornar esse hobbie possível toda quarta-feira.

Registramos aqui a nossa admiração pelo fantástico artista que foi Mike Wieringo.