Entenda como a Marvel dessexualizou as suas heroínas

Em meados de 2011 a Marvel causou muita polêmica ao cancelar a revista protagonizada pela X-23. A atitude por si só não diz nada, a revista não tinha boas vendas e, portanto, o descarte dessa HQ já era esperado. A questão foi que com esse cancelamento, a Marvel passou a não ter nenhuma publicação em banca protagonizada por uma personagem do sexo feminino. Todas as revistas possuíam homens no centro das atenções ou eram de equipes. De lá pra cá muita coisa mudou.

O início da mudança

Em 2012 a editora lançou a aclamada fase Nova Marvel!, onde relançou toda a sua linha de histórias em quadrinhos, com novas equipes criativas em praticamente todas as revistas. Nesse período, que durou de 2012 até 2015, foram lançadas 16 histórias protagonizadas por personagens do sexo feminino: Mulher-Hulk Vermelha, Journey in to Mystery, Defensoras, X-Men, Capitã Marvel, Viúva Negra, Miss Marvel, Mulher-Hulk, Elektra, Tempestade, Thor, Angela, Mulher-Aranha, Gwen-Aranha, Teia de Seda e Garota Esquilo.

Algumas das personagens femininas que tiveram destaque na Nova Marvel!. Montagem: Jamesons.

Muitas dessas revistas foram muito elogiadas pela crítica, principalmente a Miss Marvel, Thor e a Garota Esquilo, que foram indicadas e vencedoras de diversos prêmios, inclusive o Eisner, em mais de uma ocasião.

Em 2015, após a saga Guerras Secretas, a editora lançou a sua nova fase, chamada Totalmente Nova e Diferente Marvel. E dessa vez foram 22 publicações protagonizadas por mulheres, sendo muitas delas continuações da Nova Marvel!: Angela, Gwen-Aranha, Garota Esquilo, Novíssima Wolverine, Thor, Garota Lua e o Dinossauro Demoníaco, Miss Marvel, Teia de Seda, Mulher-Aranha, Felina, Feiticeira Escarlate, V-Force, Capitã Marvel, Viúva Negra, Harpia, Gwenpool, Jessica Jones, Coração de Ferro, Gamora, Gaviã Arqueira, Mulher-Hulk e Vespa.

As mulheres da Totalmente Nova e Diferente Marvel. Montagem: Jamesons.

Por ser um número bem maior de publicações, o número de acertos, assim como de erros foi maior do que na iniciativa anterior. A Thor, Garota Esquilo, Mulher-Aranha e a Miss Marvel seguiram as fases anteriores e surgiram outros runs marcantes, como em Jessica Jones, Wolverine, Viúva Negra, Mulher-Hulk e Coração de Ferro.

As polêmicas da sexualização

Na Nova Marvel! e na Totalmente Nova e Diferente Marvel duas capas causaram polêmica e repercutiram negativamente entre os fãs. A primeira foi uma capa capa alternativa de Milo Manara para a revista da Mulher-Aranha, onde a personagem aparecia em uma posição bastante sensual. A questão aqui é que Manara é um artista italiano que já possui a característica de erotizar as personagens e a capa em questão fazia parte de uma série de outras capas que envolviam todas as personagens femininas com publicações.

O Editor-Chefe da Marvel, Axel Alonso, na época, se desculpou com os fãs. “Queremos que o maior número de pessoas se sintam bem vindas para ler a Mulher-Aranha. Por isso pedimos desculpas pela interpretação que essa capa causou“, declarou o editor. Alonso também esclareceu que a capa em questão era alternativa, ou seja, não era a imagem oficial da revista, era um item de colecionador e que representava a visão do autor (no caso, o Manara) da personagem.

Nessa sua manifestação, Alonso contou também que cerca de 30% do mercado dos quadrinhos é formado por profissionais do sexo feminino e que 20% da linha de HQs da Marvel é protagonizada por mulheres.

A segunda polêmica foi em 2016, quando ocorreu o lançamento da revista Invencível Homem de Ferro, protagonizada pela Riri Williams, a Coração de Ferro. A capa, desenhada por J. Scott Campbell, sexualizava uma personagem que nas histórias tinha apenas 15 anos de idade, colocando curvas e um corpo digno de uma pessoa adulta. O escritor da publicação, Brian Michael Bendis declarou que concordou com a decisão de suspenderem essa capa, que por ela ser alternativa não passou pela sua aprovação, mas que se ele a tivesse visto, alertaria o editorial sobre o problema. Para aliviar o clima, Campbell ilustrou uma nova capa, dessa vez para a segunda edição da HQ, e sem nenhum elemento de sexualização.

Na esquerda a capa que causou polêmica na direita a imagem da segunda edição. Foto: Divulgação.

Brian Michael Bendis, é um dos mais proeminentes escritores a trabalhar com personagens do sexo feminino. É o criador da Jessica Jones, Coração de Ferro, Maria Hill e da Tremor (de Agentes da SHIELD).

Em 2013 o escritor chamou a atenção das leitoras ao responder uma mensagem anônima em seu Tumblr. Alguém questionou o escritor se ele não estaria preocupado em dar muito destaque para personagens femininas como a Jean Grey, Kitty Pryde e Tempestade nas histórias dos X-Men, uma vez que, de acordo com essa pessoa anônima, o público alvo dos quadrinhos eram homens. O usuário, que não se identificou, ainda considerou as personagens femininas como secundárias e as leitoras como vitimistas. Confira a resposta do escritor:

Uau, você é a primeira pessoa que me deixa feliz por ter feito uma pergunta no anônimo porque eu não quero te conhecer. Como leitor do meu trabalho, quero que você me escute com muita atenção: você tem problemas sérios, de verdade. Quase toda a sua pergunta cheira a um completo desentendimento do papel de homens e mulheres em geral. 

Tudo bem você estar mais interessado em alguns personagens do que outros, você pode gostar mais do Ciclope do que da Jean Grey, mas você riscar uma linha de limite para personagens femininas que você não acha interessantes só porque você é homem ou pensa que eu estou sendo manipulado por mulheres reclamonas, isso está fora de questão.

E como leitor de X-Men, cuja filosofia é totalmente sobre tolerância e compreensão … você não está entendendo nada

Alguns usuários questionaram o Bendis sobre como ele escreve personagens negros e mulheres, mais precisamente o trabalho de caracterização que ele aplica. Confira a resposta:

Não escreva um gênero ou uma raça como você escreve um personagem. Nenhum personagem representa todas as coisas para todas as pessoas, eles representam apenas o próprio indivíduo. Se você perder de vista o que torna o personagem único, você estará bajulando essa comunidade e ninguém gosta de ser apenas bajulado“.

A Marvel “dessexualizou” as suas heroínas

A partir da Nova Marvel! a editora também mudou a postura como estaria abordando as personagens femininas. Não basta dar destaque para elas, seria necessário também saber escrever elas de uma forma que pudessem ser inspiradoras para as leitoras. A editora chamou a escritora Kelly Sue DeConnick para encabeçar essa iniciativa, escrevendo a revista da Carol Danvers, que antes atendia por Miss Marvel e vestia um maiô e agora atendia como Capitã Marvel e passou a usar um uniforme realmente digno.

Na sequência dos lançamentos praticamente todas as heroínas foram “dessexualizadas“, isso é, a sexualidade exagerada delas foi retirada, mas mantiveram a sensualidade feminina. Biquínis, maiôs, roupas apertadas e seios gigantes passaram a ser cada vez mais raros. Confira alguns exemplos:

O antes e depois da “dessexualização” da Marvel. Montagem: Jamesons.

As mulheres dentro e fora das HQs

A participação feminina no mercado é algo mais do que necessário. E por incrível que pareça, existe uma parcela de leitores do sexo masculino que está decidida a impedir isso. Entre julho e agosto despontou no twitter a hastag #MakeMineMilkshake.

Tudo começou quando Heather Antos, editora da Marvel, postou no Twitter uma imagem sua com algumas colegas de trabalho bebendo milkshake. Elas estavam homenageando Flo Steinberg, uma antiga funcionária da editora que trabalhou com Stan Lee, que foi muito importante na história da empresa e que havia falecido poucos dias antes.

Por algum motivo ainda desconhecido, essa atitude gerou uma onda de xingamentos à editora na rede social. Comentários majoritariamente como esse que coloco abaixo: “Podemos parar com o feminismo e justiça social e realmente publicar boas histórias? Deus, a DC parece bem melhor“.

E teve quem ainda depreciou o trabalho atualmente realizado pela Marvel, atribuindo isso ao fato de ter muitas mulheres trabalhando na empresa: “Isso explica a ‘qualidade’ que a Marvel tem apresentado atualmente“.

Obviamente a situação não morreu aí. Diversos escritores, editores e desenhistas do mercado twittaram em apoio à Heather, promovendo o #MakeMineMilkshake. Inclusive os perfis oficiais, tanto da Marvel quanto da DC aderiram à causa. Os escritórios das duas editoras chegaram a publicar fotos com todos bebendo milkshakes em apoio.

Mas o principal apoio acabou partindo das próprias leitoras da Marvel, que encheram a caixa de entrada de Heather com mensagens para ela.

Mais recentemente uma polêmica semelhante ocorreu com um Youtuber americano. Ele faz vídeos atacando personagens de diversidade da Marvel e os artistas envolvidos com essas publicações. Ele estimula o ódio, que resulta em leitores assediando  e atacando os criadores, principalmente os profissionais que são mais novos no mercado e que pertencem a uma raça, gênero e sexo diferente de um homem branco e hétero.

Dessa vez quem levantou a voz contra isso foi o escritor Mark Waid, que na véspera de um evento nos Estados Unidos, pediu para os seus seguidores o avisarem se encontrarem o Youtuber no local, pois ele queria ter uma conversa em particular. A intenção de Waid era entender o posicionamento do Youtuber e tentar esclarecer alguma coisa que talvez ele não esteja entendendo. Confira a postagem do roteirista:

Harassment in this industry towards young creators of gender and of color, LGBTQ+ creators, just peaked. Something awful…

Posted by Mark Waid on Monday, September 25, 2017

De forma injusta, muitos interpretaram que o escritor desejava bater no “crítico de internet“. Mas não foi o caso. Waid se explicou melhor na postagem e conversou por telefone com a sua inimizade e de acordo com ele, não tem mais nada para se falar sobre isso. Por motivos de não concordar com o posicionamento do Youtuber, não mencionarei o seu nome e nem o seu canal aqui.

As escritoras atuais da Marvel

Atualmente a Marvel tem buscado diversas escritoras para trabalhar nas HQs. São escritoras que vem da literatura ou de materiais independentes. Confira quem são:

Margaret Stohl: é uma autora de bestsellers e que atualmente escreve a revista da Capitã Marvel.

Gabby Rivera: é uma escritora LGBT e latina de romances, atualmente escreve a America.

Kelly Thompson: começou escrevendo romances também, hoje escreve a revista da Gaviã Arqueira e a mini Vampira & Gambit.

G. Willow Wilson: é uma escritora muçulmana de material autoral, atualmente escreve a revista da Miss Marvel, que também é criação sua.

Rainbow Rowell: é uma escritora popular de livros para adolescentes, atualmente escreve a HQ dos Fugitivos.

Christina Strain: surgiu no mercado e trabalhou muitos anos como colorista, atualmente é a roteirista de Geração X.

Jody Houser: é uma escritora de materiais independentes que atualmente escreve Amazing Spider-Man: Renew Yous Vows.

Mariko Tamaki: é uma japonesa/canadense que se destacou por seus trabalhos autorais e atualmente escreve a Mulher-Hulk.

Da esquerda para a direita: Stohl, Rivera Thompson, Wilson, Rowell, Strain, Houser e Tamaki. Montagem: Jamesons.

E é este o cenário que envolve as mulheres na Marvel, tanto as criadoras quanto as personagens. Muita coisa já melhorou desde que a X-23 foi cancelada, mas muita coisa ainda tem pra melhorar. E com esse crescimento da participação do sexo feminino, esperamos que a opressão, que como vimos, muitos leitores fazem sobre as mulheres, passe a ser cada vez mais rara.

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