EXCLUSIVO! Sina Grace fala sobre Homem de Gelo e temática LGBT nas HQs

Hoje, dia 28 de junho, comemora-se o Dia do Orgulho LGBT – e nós aqui do site não poderíamos deixar a data passar batida. Sendo assim, corremos para lançar essa entrevista exclusiva com Sina Grace, o roteirista da revista solo do Homem de Gelo.

Sina teve a complicada tarefa de desenvolver a história em que Bobby Drake finalmente se revela gay para os amigos, ex-namoradas e, principalmente, seus pais. A trama surgiu inicialmente em Fabulosos X-Men, escrita por Brian Michael Bendis, mas foi Sina quem realmente explorou melhor esse lado do herói em uma revista solo.

Sem mais delongas, confira a entrevista:

JAMESONS: Nós lemos em outras entrevistas que você tomou muito cuidado ao escrever a histórias em que o Bobby se revela aos seus pais. Como foi o processo para desenvolver essa história em específico?

Sina Grace: Quando eu estava escrevendo sobre a cena em que o Bobby se assume para os pais, meu amigo estava em um processo de se assumir para sua família conservadora no [estado americano de] Maine. Ele morava em Los Angeles e decidiu escrever uma carta. Eu fiquei tocado com o quão delicada era toda a situação e como os seus pais reagiram, que eu inseri muito disso no que aconteceu com o Bobby Drake. Tem alguns comentários feitos pela mãe do Bobby em edições seguintes que definitivamente saíram da boca da minha mãe.

Marvel Comics | Arte por Alessandro Vitti

JAMESONS – Nós temos visto algumas pessoas que se opõem à diversidade em geral, e outras que até apoiam, tendo certa desaprovação a como a Marvel “mudou” o Bobby, de um homem hétero para gay. Alguns argumentam que se ele tivesse se assumido bissexual faria mais sentido, e outros acham que toda a questão é irrealista ou “feita para ganhar dinheiro”. Você concorda? Ou acha que teve mais coisas boas vindas da situação? O que você acha de como o Brian Michael Bendis e a Marvel lidaram com a situação?

Sina Grace: Olha, sobre quem acha que a decisão [de ter o Bobby gay] foi feita “para ganhar dinheiro”, essa foi a maior piada que eu já ouvi desde o começo da pandemia e eu gostaria de agradecer a pessoa por me fazer rir! É um risco enorme ter um personagem já estabelecido e então divulgá-lo como gay, considerando que em vários países no mundo dizem que a homossexualidade não é real e um crime digno de punição. Você tem que utilizar vários recursos de marketing para atingir uma pequena audiência, e você com certeza terá gente que vai desaprovar. Dito isto, eu não acho que foi irrealista ou feito pelo dinheiro. Não é o meu local falar como o Bendis ou outros editores lidaram com as coisas. Eles tomaram uma decisão e colocaram em prática com alguns detalhes – detalhes esses que eu acredito que ressoam sobre o que representam os X-Men.

Sobre a ideia de que o Bobby poderia ter sido bissexual… eu fui contratado para escrever alguém que se identificava como gay. Eu peguei duas histórias reais de ex-namorados meus que se assumiram depois dos vinte ou trinta anos e descrevi a jornada do Homem de Gelo de uma forma que fosse autêntica com o que eles passaram.

JAMESONS – Um dos nossos momentos preferidos dos dois volumes da HQ foi a Parada do Orgulho Mutante, acho que é um conceito tão simples, tão real, que faz tanto sentido e também é tão poderoso. Como foi escrever aquele discurso da Tempestade com a Kitty?

Sina Grace: O discurso da Tempestade e da Kitty foi muito divertido de escrever, porque eu realmente amo essas personagens e o que elas acreditam que os X-Men simbolizam para a comunidade. Foi um desafio divertido como escritor colocar esse discurso de uma forma que distraísse o leitor de que o Bobby não estava falando em sua cena de espionagem (porque a reviravolta na história era que ele estava enviando um golem de gelo em seu lugar), então eu precisava ter certeza que o que elas estavam dizendo era atraente de se ler! Mas, sim, a Parada do Orgulho Mutante foi divertida em muitas maneiras. Eu consegui mergulhar na história de Nova York com os protestos de Stonewall e mostrar uma variada gama de personagens lutando por seu lugar.

Marvel Comics | Arte por Nathan Stockman

JAMESONS – Também um tema no segundo volume foi o grupo que odiava Morlocks, o que pode ser visto em como as pessoas dentro da comunidade LGBT (e até em outros grupos minoritários) podem rejeitar e excluir aqueles que são “ainda mais diferentes” do padrão. Por que você acha que esse tipo de história precisa ser contada?

Sina Grace: Agora mais do que antes, finalmente estamos reconhecendo que pessoas trans e não-binárias na comunidade LGBTQIA+ passam por ódio e preconceitos em níveis mais violentos que o restante de nós. Com o Black Lives Matter na frente da discussão internacional, não podemos ignorar as vidas trans negras que perdemos. Isso esteve em minha mente por muito tempo, então quando eu tive a oportunidade de contar uma nova história do Homem de Gelo, eu queria mudar um pouco esse foco de alguém descobrindo sua dor interna, para a de um herói descobrindo a dor de sua própria comunidade e buscando soluções para se tornar um legítimo aliado.

JAMESONS – Você criou também na revista a Shade/Darkevil e ela imediatamente caiu nas graças dos leitores. Muitos dos fãs mutantes também são da comunidade LGBT e nós vimos nas suas redes sociais que eles lhe encheram de fanarts. Você esperava por todo esse carinho? E o que você gostaria de fazer com a personagem e não conseguiu?

Sina Grace: A boa recepção imediata da Shade/Darkveil me pegou de surpresa. Eu pensei que as pessoas só iam achá-la legal como eu acho… mas ser reconhecida em tal nível? Muito muito muito legal! 🙂

E me deixa feliz porque eu inventei o design dos trajes, criei todo o conceito e o Nate Stockman (o artista da revista) trouxe ela à vida, mas eu sinto que essa é uma coisa especial que eu criei, e ninguém na Marvel pode tirar o crédito dela.

Foi incrivelmente fácil conseguir a aprovação dela pelos editores e pela Marvel, porque não importa quantas vezes eu falava para eles que o pessoal ia surtar, eles nunca acreditaram e só deixaram o processo fluir sem se meterem.

Marvel Comics | Arte por Nathan Stockman

JAMESONS – Ainda temos muito que percorrer quando se trata de diversidade nos quadrinhos de super-heróis. Você acha que o Homem de Gelo, no futuro, possa ser visto como um símbolo de progresso, um degrau ultrapassado quando se trata de diversidade nos quadrinhos mainstream?

Sina Grace: Eu espero que o Homem de Gelo ainda tenha um peso e relevância nos próximos anos. Eu tentei contar uma história com um valor universal em termos de aprender a se amar e os passos para se tornar um herói. No fim, tudo depende de quem está no poder e se eles querem ver como programas de TV bem sucedidos como Pose e RuPaul’s Drag Race deram certo financeiramente. Ou eles estão vendo que há um prestígio em fazer um bom trabalho e contar histórias de forma responsável… só é preciso um pouco mais de esforço e consideração durante o processo. Quem sabe?

JAMESONS – Ano passado você publicou um desabafo sobre sua experiência na Marvel, desde as ameaças online até a falta de apoio da Marvel. Para nós, isso foi algo muito importante e corajoso, uma vez que expôs como as empresas ainda têm muito o a aprender quando se trata de realmente apoiar LGBTs (e outras minorias). Desde então, você acha que o seu post teve algum impacto dentro ou fora da Marvel? Eles chegaram a te contatar?

Sina Grace: Me entristece dizer que eu não acho que algo mudou em como a Marvel trabalha com seu pessoal. Eles não me procuraram de maneira alguma. Eles não estão interessados em um trabalho duro e gratificante. Eles não querem ser os heróis que eles promovem em seus brinquedos. É mais fácil fazer negócios do jeito que já estão acostumados. Como você convence uma empresa com homens brancos e conservadores no topo de que vale a pena fazer as coisas que não trazem retorno lucrativo imediato? Minha unica esperança é que [meu desabafo] tenha dado a coragem para que indivíduos possam ver quando eles não estão sendo bem tratados, e para que possam dizer algo ou sair dessa situação antes que seja tarde. É tudo o que podemos fazer; proteger a nós mesmos e cortá-los de nossos talentos antes que haja algum dano a longo prazo.

Marvel Comics | Arte por: Kevin Wada

JAMESONS – Infelizmente aqui no Brasil a editora Panini Comics, que é licenciada pela Marvel e publica as revistas da Marvel e DC, não lançou a HQ do Homem de Gelo. Muitas publicações com personagens diversos tem sido ignoradas pela editora, mas aos poucos com o apelo dos fãs a Panini tem cedido e arranjado formas de publicar esses materiais. Gostaríamos de pedir para que você, o autor da revista, se juntasse a nós e pedisse para a Panini publicar o material no Brasil.

Sina Grace: Oi, Panini! O que é que falta? Eu vou mandar algumas bookplates assinadas para todas as cópias do primeiro volume!!! Seria muito legal ver “Homem de Gelo” na minha estante!! Na minha opinião, esse gibi conta uma ótima história sobre um personagem tentando se tornar a melhor versão de si mesmo. Não tem nada de errado em contar histórias sobre autoaceitação. Além disso, tem uma cena de luta dele com o Fanático que é bem divertida, e tenho certeza que muitos fãs brasileiros querem ver o Homem de Gelo com o Homem-Aranha e Seus Amigos [da animação] juntos novamente!

Marvel Comics | Arte por: W. Scott Forbes

JAMESONS – Se você voltasse a escrever para a Marvel, que tipo de gibi você escreveria, dada a total liberdade para tal? Também (não necessariamente relacionado à pergunta), você gostaria de revisitar a Darkveil algum dia?

Sina Grace: A Marvel tem alguns dos meus personagens favoritos, então eu acho que se tivesse uma circunstância mágica em que eles iam me querer trabalhando para eles e que eu me sentisse confortável trabalhando lá, então eu gostaria de continuar a escrever alguns personagens mutantes. Mas também amo o Homem-Aranha, Nova, Quarteto Fantástico, etc etc. Só não muito os Vingadores… eu não sei se saberia o que fazer com uma equipe de titãs.

E por mais que eu ame muito a Darkveil e tenha várias histórias para ela na minha cabeça, eu amaria dar para eles o e-mail da Shea Coulee e dizer para que a Marvel contratasse uma drag queen negra para continuar suas histórias. Eu fiz o bastão, hora de passar adiante.

Mas que baita entrevista, não é mesmo? Sina Grace foi extremamente receptivo com a gente e agradecemos profundamente o carinho e sinceridade que deu nas respostas. Deixe a sua opinião nos comentários.

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