A fina arte de escrever personagens com os quais ninguém se importa

Se existe um fator primordial que faz com que as editoras Marvel e DC sejam as líderes de mercado no segmento de quadrinhos, esse fato são os seus personagens.

Não que as duas editoras não publiquem bons materiais, não é isso que estou falando. O que quero dizer é que com décadas e décadas de histórias sequências acumuladas, a Marvel e a DC adquiriram uma legião de fãs devotos aos personagens.

Tem a galera que só acompanha os X-Men, o Homem-Aranha, o Batman ou outro personagem das duas editoras. Uma galera que, independente da qualidade do material, seguirá colecionando as revistas de forma regular.

É isso que diferencia a Marvel e a DC de concorrentes como a Image. Os heróis estão cravados no imaginário popular mundial, sobretudo após a ascensão de seus filmes no século 21.

E é por isso que escrevo esse texto para valorizar os autores que conseguem produzir materiais que subvertem essa lógica nas revistas clássicas da Marvel e da DC. Assumem projetos de destaque no mercado mainstream e arranjam espaço para desenvolver, mesmo que por uma única edição, personagens que nas mãos de qualquer outro escritor seriam completamente ignorados.

Para exemplificar o que estou querendo dizer, vou trazer três exemplos bastante sólidos, um escrito por Christos Gage e outros dois por Nick Spencer.

Escrever o Homem-Aranha é “fácil“, qualquer coisa que você colocar no papel, desde que não seja muito controverso, será aceito. Da mesma forma que escrever um personagem original em uma HQ independente da Image se não é fácil, é no mínimo criativamente libertador.

Mas e escrever um personagem com décadas de cronologia, nenhum destaque ou fã e ainda ter de humanizar ele em uma revista que deveria trazer, por exemplo, o Homem-Aranha como protagonista? Isso exige um talento impar, pois se a história não valer a pena, os fãs vão reclamar na internet.

Johnny Guitarra

O primeiro exemplo que trago aqui é Jonathan Logan, o Johnny Guitarra. Vilão criado em 1982 na vigésima edição da HQ da Cristal. Sua história é tão minúscula dentro da Marvel que a sua página na Marvel Wikia se resume a dois parágrafos, sendo o segundo resumindo a história que vou mencionar agora.

Lá em 2009, durante o período editorial chamada Reinado Sombrio, quando o vilão Norman Osborn tomou as rédeas do Universo Marvel, a revista Vingadores: A Iniciativa, passou a recrutar vilões para proteger os Estados Unidos.

Na edição #27, escrita por Christos Gage (Superior Homem-Aranha) e desenhada por Rafael Sandoval (Lanterna Verde), somos apresentados a história de Jonathan.

Um adolescente, nascido no interior e que junto do seu amigo desejava ser um astro musical. A carreira foi brecada quando ele e seu colega engravidaram suas namoradas.

A história da dupla se resume a: abandonar a família, fracassar em ser músico, fracassar em ser vilão e ter uma vida frustrada, tocando em boate e gastando todo o dinheiro em festas.

Focando em Jonathan, a história mostra como ele ferrou com a sua família, com seu amigo e a família dele. Mas a história não aborda apenas o drama, mostra a sua irresponsabilidade e a culpa que carrega por ter sido um pai ausente.

Ao final da história o Johnny Guitarra tenta uma redenção. Mas isso é impossível. Um pai que foi ausente na vida de um filho e obrigou a esposa a ser mãe solteira, não tem como se redimir. Ele pode apenas ser “menos pior”.

Johnny deixou uma carta póstuma para o seu filho, uma das últimas mensagens dessa carta simboliza claramente como ele, ao final, entendeu o péssimo pai que foi: “Eu sei que apenas dizer não é bom o suficiente, mas eu sinto muito. Sinto muito por não estar lá quando você se formar, se casar ou então quando tiver seus próprios filhos. Mas vamos ser honestos, havia uma grande chance de eu não estar lá de qualquer forma.

Gage utiliza nessa história a trajetória pessoal do Johnny para contextualizar o cenário criado por Norman Osborn na iniciativa. Lembro de ter comprado essa HQ sem expectativa alguma e de ter ficado positivamente surpreso após terminar a leitura.

Gibão

O segundo exemplo que quero trazer aqui ocorreu recentemente, a história ainda é inédita no Brasil. Foi em O Espetacular Homem-Aranha vol. 5 #18.HU.

A HQ conta com roteiro de Nick Spencer (Capitão América) e arte de Ken Lashley (X-Men Gold). A revista é um tie-in do arco “Hunted” (Caçado, em uma tradução livre), história onde o vilão Kraven reúne no Central Park dezenas de personagens que possuem temática de vilão. Como por exemplo: Homem-Aranha, Rhino, Abutre, Besouro, Coruja e outros mais.

Um desses personagens foi o Gibão, que recebeu uma edição completamente focada na sua história. Chamado Martin Blank, o Gibão foi uma criança que nasceu com o rosto um pouco desfigurado, possuindo traços que na escola, através do bullying, era comparado a um macaco. Inclusive em um passeio da escola ao zoológico, seus colegas sugeriram que seu pai havia feito sexo com um macaco, o que para eles explicaria a sua fisionomia.

Devido a sua aparência, o Gibão nunca encontrou muitas oportunidades na vida. Era motivo de chacota em todos os lugares, o que era a maior tristeza da sua vida. Inclusive a sua entrada no mundo do crime se dá dessa maneira: ele vai se apresentar ao Homem-Aranha como um amigo, mas o Teioso começa a rir da sua cara devido ao uniforme de macaco e em um acesso de raiva o Gibão o ataca.

Ao longo da sua vida, Martin foi usado por outros vilões e até pela mulher que amava. Sempre que arranjava um pouco de paz, era arrastado novamente para a lama.

A história de Nick Spencer é sobre o Gibão tentando contar para o Homem-Aranha que não é uma pessoa ruim, mas também sobre o dia em que ele parou de ouvir as risadas das pessoas.

Nick Spencer

Vou abrir um tópico a parte pra falar sobre esse que considero um dos melhores escritores da Marvel atualmente. O Gibão não foi o único trabalho do autor onde ele demonstrou a “fina arte de escrever personagens com os quais ninguém se importa“.

Existe um título completo dedicado a um grupo de personagens que se encaixam nessa definição: os Superiores Inimigos do Homem-Aranha.

Na revista acompanhamos o vilão Bumerangue liderando uma nova versão disfuncional do Sexteto Sinistro, contando agora com a participação do Shocker, a Besouro, Corisco e Overdriver.

Os personagens são uns perdedores e o título foca na relação deles, quase como em uma sitcom, ao mesmo tempo em que explora as vidas particulares dos personagens, nos apresentando com humor e até drama as suas motivações.

A HQ foi lançada em 2013 e fez tanto sucesso com a crítica que foi um dos principais pontos que fizeram com que Nick Spencer, em 2018, assumisse de forma regular o título principal do Homem-Aranha.

Spencer, inclusive, trouxe o Bumerangue para ser um coadjuvante fixo da revista do Homem-Aranha. Peter e Fred Myers (Bumerangue) são colegas de quarto.

Todas essas histórias mencionadas acima não possuem nada de extremamente fantástico ou elaborado. Nenhum monstro cósmico ou aventura espacial. Na verdade, elas basicamente nem envolvem os super-poderes direito.

É tudo sobre como os escritores conseguem pegar vilões “descartáveis” e usar a fina arte de escrever personagens com os quais nos importamos. Pois é isso, personagens que antes “cagávamos” e ao conhecer as suas motivações e a vida particular, nos relacionamentos, nos preocupamos e nos importamos.

Mas e você, caro leitor, tem algum outra história da Marvel que você gosta e explora personagens “descartáveis”? Deixe nos comentários as suas opiniões e sugestões de leitura deste tipo.